Cansadas de viverem sozinhas, de vez em quando as letras resolvem se misturar na cabeça de algumas pessoas e, juntas, formam palavras, que formam textos que, dependendo do momento e da imaginação de cada um, tornam-se contos, ensaios, críticas ou até mesmo incríveis historinhas infantis.
Daí, surgem misturas fantásticas para saciar a nossa fome de beleza e nos levar a um mundo encantado que só a nossa imaginação, unida à imaginação de quem escreve pode desvendar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

INDIGNAÇÃO, AMNÉSIA E IMPEACHMENT

por Rejane Menezes

Tenho acompanhado pela mídia social que as “pessoas indignadas com a corrupção” estão convocando um evento para, mais uma vez, pedir o impeachment de Dilma.
Soube desse “evento” através de convite de uma pessoa “indignada” que, na verdade, me indignou ao enviar o convite. Faço questão de afirmar que sou petista, desde 1989 e, um convite desses, me ofende. Não consigo imaginar que alguém possa supor que eu participaria de algo antidemocrático assim. Eu respeito a vontade dos eleitores. Posso não concordar, como já aconteceu várias vezes, mas respeito.

Dilma foi reeleita em uma eleição lícita, que ocorreu dentro dos parâmetros legais da Constituição Brasileira, soberana e que deve ser respeitada por todos os brasileiros.
Essa história de ficar querendo o impeachment de Dilma parece coisa de turminha de escola que perde o jogo e tem que entregar a quadra e fica de birra, sem aceitar a derrota. Perdeu, pronto. Prepare-se para a próxima eleição. Porque essa acabou em outubro de 2014.

Sob a bandeira de luta contra a corrupção, as “pessoas indignadas” vão de novo às ruas pedir que o mandato de Dilma seja cassado. Como se fazia à época ditadura com políticos que eram contra o governo. Pensam que são os caras pintadas da época de Collor.

 Só pra refrescar a memória das "pessoas indignadas": vocês descobriram a corrupção agora? Sério? A gente descobriu faz tempo. Mas só o governo do PT permitiu e incentivou as investigações.

Querem acabar com a corrupção? De verdade? Comecem então fazendo uma auditoria em sua vida.  Vejam, com sinceridade, se vocês respeitam os direitos das pessoas que trabalham pra vocês, seja em casa ou em suas empresas. Vocês pagam todos os  direitos? Dão folgas semanais para seus empregados domésticos? Pagam hora extra se extrapolar as horas legais  semanais?

Ou é como aquela eleitora de Aécio, que odeia Dilma e é dona de um negócio, tem vários funcionários, mas não assina a carteira de nenhum, não paga férias, só paga o baixo salário depois do dia 10 de cada mês, o décimo terceiro, por muito favor, paga em fevereiro e exige o máximo que pode?

O imposto de Renda está chegando. Já comprou recibo ou prestou serviço sem dar recibo para não pagar imposto? Já colocou dependentes imaginários para diminuir o que deve ao fisco? Tem uma loja, mas não dá nota fiscal?

Já pagou propina pra não levar multa? Já usou seu cargo, presentes  ou dinheiro para obter benefícios ou privilégios?

Corrupção não é apenas desviar grandes somas de dinheiro público não. É usar o papel, a impressora, a caneta, a máquina de Xerox, os grampos ou os clips, comprados com o dinheiro público para ser usado no trabalho, para imprimir, grampear, tirar Xerox de coisas pessoais.


Tem também o caso de pessoas que têm empresas que administram condomínios e que, mesmo recolhendo, regularmente, as taxas mensais, não pagam, por exemplo, INSS ou FGTS dos funcionários, deixando a dívida para os condôminos pagarem no dia que descobrem que foram lesados.

É fácil gritar que é contra a corrupção, se indignar com ela, fazer grupos nas mídias sociais e até ir às ruas carregando bandeiras de indignação.

Difícil é confrontar-se consigo mesmo e fazer essa auditoria, buscando uma ficha limpa pessoal que, muitas vezes, está longe de existir.

Por isso a minha sugestão é: vamos fazendo uma autoanálise, revisando nosso comportamento diante de algumas dessas situações que falei acima. E, ao final da análise, mesmo que pedir o impeachment seja algo totalmente sem propósito, que atire a primeira pedra do impeachment aquele que nunca  corrompeu ou foi corrompido.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA


por Rejane Menezes

 Abomino qualquer tipo de violência, em todas as suas manifestações. O atentado ao jornal francês foi uma violência desmedida e totalmente condenável. Mas acho também que as charges que o jornal publicou são também uma forma de violência, uma vez que demonstram uma total falta de respeito com o islamismo e o Cristianismo. Tive a oportunidade de ver algumas charges e fiquei chocada com a falta de respeito e o mau gosto das charges. É claro que as pessoas não deveriam ter pago com a vida por isso. De jeito nenhum. Mas acho que a liberdade de expressão deveria ter um limite quanto ao respeito aos valores e às crenças dos outros.
 Respeito profundamente quem é ateu ou agnóstico. Todos têm o direito de acreditar ou não em Deus, de ter ou não uma religião. E, da mesma forma que, tenho certeza, os ateus e agnósticos querem ser respeitados em suas convicções, deveriam respeitar as dos outros.
Uma coisa é publicar matérias ou teorias sobre a não existência de Deus ou do mal que achem que a religião causa às pessoas. Outra coisa é publicar charges obscenas com Maomé, Deus, Jesus Cristo ou o Espírito Santo.  Da mesma forma que seria condenável publicarem charges obscenas com políticos ou celebridades de uma maneira geral. Um jornal que publica coisas para degradar pessoas ou religiões não deveria nem ser chamado de jornal. É um tipo de publicação que envergonha a classe. Não acho que podemos chamar de jornalismos esse tipo de coisa.
Dizer que a culpa é das vítimas por terem insultado os mulçumanos seria o mesmo que dizer que as mulheres são culpadas por serem estupradas por usarem shorts ou saias curtas. Não se trata disso. Trata-se de exigirmos uma imprensa mais séria, mais comprometida com os valores, que tenha mais respeito pelas pessoas, suas crenças, suas opções de vida e, sobretudo, com a verdade.
No Brasil temos vários exemplos de publicações, em papel ou virtual, que não estão comprometidos com a verdade ou com o respeito. E, que com suas publicações, geraram cenas de violência, como, por exemplo, na última campanha eleitoral.
A falta de respeito, como violência que é, gera mais violência. Isso não justifica o ataque, é claro. Mas mostra duas coisas: o baixo nível da imprensa em termos mundiais e a fragilidade em que se encontra a paz.
Com certeza o jornal pagou um preço muito alto por sua falta de respeito e deboche. Quiçá, pelo menos, tenham aprendido a lição e não façam dessa tragédia uma bandeira para continuarem a publicar suas arbitrariedades.
Na França a Lei de Imprensa data de 1891 e existe uma agência reguladora independente. Entre outras atribuições o órgão também é responsável por monitorar o cumprimento das obrigações por parte da mídia, como a função educativa. O descumprimento ocasiona a aplicação de multas. Não acho que as publicações do jornal Charlie Hebdo podem se enquadrar como função educativa e por que publicavam livremente coisas do tipo.
A Charlie Hebdo foi fundada em 1970, quando substituiu 'Hara Kiri', semanário que reivindicava seu tom 'estúpido e malvado', fundado por Cavanna - falecido no ano passado - e Georges Bernier.  Neste ano, misturando o drama de uma discoteca no qual 146 pessoas morreram com o falecimento de Charles De Gaulle, o jornal intitulou 'Baile trágico em Colombey (a localidade onde o general morreu): um morto'. O governo proibiu imediatamente a difusão da Hara Kiri.
A redação optou, então, por uma nova fórmula editorial que combinava quadrinhos com posições parecidas com as da Hara Kiri, mas sob um novo título, Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, o Charlie dos Peanuts, as famosas tirinhas americanas de Charles Schulz.  Não acho que o autor de uma turminha tão legal deveria encarar isso como uma homenagem.
Ao mexer com uma figura pública como Charles De Gaulle, a publicação foi proibida.
A redação optou, então, por uma nova fórmula editorial que combinava quadrinhos com posições parecidas com as da Hara Kiri, mas sob um novo título, Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, o Charlie dos Peanuts, as famosas tirinhas americanas de Charles Schulz.
Aprendi na faculdade que a imprensa tem três funções: informar, educar e divertir.
Como jornalistas tenho andado muito envergonhada ultimamente, em relação à uma grande parcela da mídia brasileira quando incita à violência, denigre a imagem dos outros ou publica mentiras. Quando procuro um mínimo de programas educativos e não encontro. Quando tento me divertir constato que as formas de diversão estão caindo cada vez mais de nível e se tornando bizarras.
E, como jornalista e cidadã, espero que o Marco Regulatório da Imprensa seja aprovado e que jornalistas e empresas sejam responsabilizados pelo que publicam. Quem sabe, assim, não melhoramos o nível de nossa mídia?

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SERÁ QUE ERA VERDADE?


por Rejane Menezes 

Quando eu era pequena ouvia muito uma história sobre os perigos e a força da mentira. Contava a história que, em uma pequena cidade do interior, nada acontecia de novo, até a inauguração de um cinema. Foi uma alvoroço só. Todo mundo mandando fazer roupa nova para a grande inauguração. E, como era de se esperar, o cinema superlotou logo e muita gente ficou de fora. O barbeiro, devido ao grande número de fregueses naquele dia, quando chegou à porta do cinema, não lhe deixaram mais entrar. Homem muito conversador e contador de histórias e divulgador das novidades, não se conformou em ficar de fora de um tão grande acontecimento em sua cidade.

Matutou um pouco sobre o que faria quando, de repente, teve uma ideia. Chegou junto do constrangido porteiro que impediu a sua entrada e comentou: o amigo viu a baleia que colocaram no tanque da praça?

Ao que, abismado, respondeu o rapaz que não tinha visto. Talvez tivesse passado por lá muito cedo. Depois, animado, pediu detalhes. O barbeiro descreveu tão entusiasticamente a baleia da praça que chamou a atenção dos dois lanterninhas e da moça da bilheteria.

Logo o zum zum zum foi entrando pela sala de cinema e as pessoas que se amontoavam na sala de projeção foram ficando curiosas e saindo para perguntar o que estava acontecendo. Ao saberem da baleia da praça, iam correndo até lá para ver de perto a novidade. E a notícia foi se espalhando pela sala.

O barbeiro, atingido o seu intento, se esquivou, discretamente e foi procurar um lugar para se sentar e apreciar o filme.

Mas as pessoas não paravam de se levantar e ir para fora, não retornando mais aos seu lugares. Embevecido com a maravilha que era o filme, o barbeiro se envolveu de tal forma que, quando se deu conta, a tela ficou escura, as luzes acenderam e não havia mais ninguém na sala além dele.

Indignado levantou correndo e esbarrou no funcionário que operava o projetor de filmes e perguntou o que aconteceu. Por que o filme foi interrompido? Não vai voltar a exibir o filme?

O funcionário respondeu que não teria mais filme por aquele dia. A inauguração do cinema tinha sido suspensa pelo dono, por falta de expectadores. E apressado ainda gritou para um boquiaberto babeiro: estou indo ver a baleia e seus filhote, que estão no tanque da praça. Todos já foram. Você não vem?

O barbeiro coçou a cabeça, franziu a testa e ainda mais intrigado se perguntou: rapaz, será que havia mesmo uma baleia no tanque da praça e eu não vi? E com um filhote? E, sem pensar duas vezes, correu atrás da multidão para não deixar de ver a baleia.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

TEM QUE SER AGORA?


por Rejane Menezes

Esta semana estávamos conversando sobre a inovação do WhatsApp que, a partir da nova atualização, as pessoas vão saber se suas mensagens já foram ou não visualizadas. Claro que isso gerou uma polêmica generalizada sobre ser um absurdo, invasão de privacidade e outros senões.
E, quando disse que isso não me afeta, estava sendo sincera. Porque realmente não me incomoda o fato da pessoa ter lido e não ter respondido e, muito menos o contrário, a pessoa ver que li e não respondi. Porque, na verdade, apesar de ser altamente ligada às inovações da tecnologia, ser uma admiradora incondicional do progresso dos equipamentos e ferramentas que cada vez mais nos conectam ao mundo todo, não acho que o fato de ter lido uma mensagem que não encerre nenhuma urgência, me obrigue a parar tudo para respondê-la.

E daí se a pessoa viu que eu já li? Minha gente houve um tempo em que nem telefone existia e as pessoas sobreviveram à espera por respostas que demoravam meses.
Com o advento do telefone, a comunicação ficou mais fácil, é verdade. Mas antes de telefonemas interestaduais e internacionais, o telegrama era a forma mais rápida de comunicação. E todo mundo sobreviveu a isso.
Moramos em Natal, por três anos e, por opção de sossego, não tínhamos telefone em casa. Para emergências, a família tinha o número da vizinha.
Hoje, se ligamos para alguém e celular não atende, já ficamos aflitos ou com raiva. Se enviamos um WhatsApp e a pessoa não responde, é falta de consideração. Se marcamos uma pessoa no Face e ela não curte ou comenta é descaso. Se enviamos um e-mail e ficamos sem resposta, é desatenção. E, se algum amigo não prefere os aparelhos de celular comuns e não tem WhatsApp, é um alienado.
 

De repente é como se a comunicação virtual nos controlasse e ditasse as regras do bom comportamento. Quando estou dirigindo, não atendo o celular de jeito nenhum. Nem com fone de ouvido ou viva voz. Celular distrai e compromete a segurança. Já fui repreendida por chefes e colegas de trabalho. Não me importo. Privilegio a segurança. Ponto.
Minha gente não temos que obedecer a essas regras que levam a fazer loucuras, como digitar mensagem dirigindo, porque alguém quer uma resposta imediata. Já houve acidentes graves por isso.
O mundo não vai acabar se  desligarmos o celular por duas horas enquanto está no cinema.
Como já disse sou uma grande entusiasta da tecnologia e procuro aprender e adotar tudo que facilite a minha vida. Mas quero a tecnologia ao meu serviço, ao meu dispor e não o contrário, pois seria uma servidão sem nenhum propósito.
 

Portanto meus amigos, se enviarem uma mensagem por MSM, WhatsApp, Menseger, o que for e constatarem que li e não respondi, não comecem a imaginar os motivos. Quando eu não responder logo só existem duas respostas: ou estou ocupada e não posso responder naquele momento ou não respondi porque não quis. Em qualquer dos casos não há nada que você possa fazer a não ser esperar.
Vamos tomar um chazinho de camomila, um suquinho de maracujá e nos manter calmos. Para que a pressa?
Respondamos nossas mensagens quando pudermos, no momento mais adequado e deixemos de neura. A única e segura maneira de manter sua privacidade é ficar fora das redes. É como aquele velho ditado: “Ajoelhou, tem que rezar”. Ou ainda: “Caiu na rede, é peixe”.
Então, se gosta participar das redes, configure sua segurança e KEEP CALM. Porque privacidade... O que é mesmo?

 


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?


por Rejane Menezes 

Pois é, essa história do juiz que se ofendeu quando descobriu que não era Deus, dirigindo com carteira vencida e carro sem emplacamento, me lembrou os nada saudosos anos de chumbo, quando “carteirar” era a coisa mais comum. A frase, esnobe e pretenciosa “sabe com quem está falando” era usada com frequência, para desviar o foco do da coisa errada que estava fazendo e, daí, intimidar quem pegou o flagra.

Como os militares estavam infiltrados em todos os lugares, sempre tinha um para tirar o filho, o irmão, o amigo, o vizinho, do sufoco. Daí, ou o próprio miliar usava sua carteira para se safar ou livrar alguém ou então o alguém recorria a tal frase para mostrar que ou era alguma autoridade ou era próximo de quem era.

A agente em questão estava cumprindo o seu dever ao autuar uma pessoa que descumpria a lei. E, estava respeitando o artigo 5º da Constituição Brasileira que diz que “todos são iguais perante a lei”. E, por cumprir o seu dever vai ter que pagar R$ 5.000,00 ao juiz que estava descumprindo a lei de trânsito. Mas, enfim, corporativismo é o que mais vemos neste País, em detrimento do que é certo.

Bem, voltando aos anos de chumbo, lembrei de uma história que aconteceu comigo e minha irmã. Nós estávamos voltando de um enterro. Eu, ainda um tanto abalada, cometi um atropelamento. Aliás, o primeiro e único atropelamento em toda a minha vida.
SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?
 
Atropelei um balde. Isso mesmo: um balde. Como não sabia o que eu havia atropelado, parei imediatamente o carro e ia abrindo a porta para ver do que se tratava quando surgiu, ao meu lado, um soldado, balançando os braços e gritando, o que só depois consegui entender: “você destruiu uma propriedade do exército brasileiro”.  A princípio me assustei, achando que havia atropelado um companheiro dele. Só quando vi o balde, meio amassado, nas mãos deles, e ele apontando e gritando, foi que me dei conta de quem ou o quê eu havia atropelado.

Assustada com a fúria do rapaz, fechei a porta do carro e tentei ir embora. Afinal, com toda certeza, o alvo do meu atropelamento não ia precisar de socorro. E, imagino que o Detran não iria se deslocar para fazer a ocorrência, dada a identidade da vítima. Mas ele ficou grudado à janela, gritando que eu ia ter que pagar e outras coisas que já não me lembro.

Olhando ao redor, vendo esponja, sabão etc, entendi que o soldado estava lavando um carro. E, o tal do balde devia estar afastado do carro e, dada a sua pouca estatura, não me foi possível evitar o "pior".

 
Era um daqueles baldes de latão que se usava muito. Estava amassado, mas ainda servia. Quando vi que ela não ia largar a janela do carro e que não parava de gritar, eu respirei fundo, olhei bem nos olhos dele e “carteirei”. Pedi para ele fazer silêncio, bem abusada. Ele, surpreso, calou a boca. Então peguei um papel e uma caneta e solicitei o nome dele, a patente  e o local onde estava lotado. Ainda surpreso ele perguntou pra que. E eu falei, na maior tranquilidade, que era para fazer queixa ao coronel fulano de tal, de tal quartel, que, por acaso era o meu pai. Falei que meu pai gostaria muito de saber como eu havia sido tratada  por um provável subalterno dele.

E aí o feitiço virou contra o feiticeiro. Ele ficou pálido, começou a gaguejar, pediu desculpas, disse que não tinha sido nada, que o balde ainda servia, que eu podia ir embora, que estava tudo bem. Confesso que cheguei a ficar com um pouco de pena dele. Diante do pedido de desculpas, falei que ia deixar pra lá. Mas que ele tomasse cuidado. Da próxima vez meu pai iria saber. E não iria ficar feliz.

Liguei o carro e saí dali mais que depressa, antes que o nervosinho descobrisse que o tal coronel não existia. Ainda bem que naquela época não tinha celular.

Outro abuso de poder, frequente, na verdade, semanal, acontecia em uma rua na lateral de um quartel da polícia. Toda sexta-feira, a partir das sete da manhã, havia uma formação de oficiais na  frente de um edifício, no final da rua. Tinha também uma banda, que tocava por lá, não lembro se fazia parte da formação ou se era ensaio. E isso durava pelo menos uma hora. Bem, se fosse apenas o incômodolho do baru, já seria um absurdo. Mas, o problema maior é que a rua é sem saída e a formação dos oficiais ficava na frente da entrada e saída da garagem. Ou seja, era como a música de Luiz Gonzaga: ”Quem está fora não entra, quem está dentro não sai”.

Então, os moradores do prédio tinham que se organizar para sair de casa antes das sete, se quisessem chegar no horário em seus compromissos.  Isso durou muito e muito tempo. Qualquer compromisso que envolvesse sair ou entrar no prédio de carro, às sextas-feiras, tinha que ser antes das sete e depois das oito.
 
E ai de quem fosse fazer alguma reclamação sobre o assunto. Era capaz de sair de lá fichado. Ou, então, ser preso por desacato. Vá saber.

Para quem não lembra ou não viveu no famigerado tempo da ditadura, é bom saber que, o abuso de poder, a tal da “carteirada” era o seu lado mais ameno, porém, não menos invasivo e absurdo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CUIDADO COM AS SUAS TROCAS

por Rejane Menezes


Uma família da cidade, costumava passar as férias de inverno em sua luxuosa casa de campo, com dois pavimentos, piscina, quartos de hóspede, salão de jogos, sauna, salão de exercícios e uma infinidade de  acessórios e conveniências,  que tornavam as férias inesquecíveis.
É claro que havia um número exagerado de empregados, mal remunerados, que faziam de tudo para que a família e seus hóspedes tivessem sempre tudo à mão, sem precisar sair do lugar.
Mas foi aí que aconteceu o inesperado: um pequeno ratinho, uma catita, como chamamos por aqui, se mudou para dentro da casa, apesar de todas as telas, de toda limpeza, de todo o cuidado dos funcionários.
E o pequeno animalzinho foi se alojar em um cantinho da sala e, aqui e ali, um membro da família tinha um ataque histérico, quando via a aquela minúscula catitinha correndo pelos cantos da casa.
Houve perturbação geral na ordem perfeita da casa. Empregados foram demitidos, outros contratados, dedetizações foram feitas, ate para ratoeiras apelaram e nada. Colocaram um gato dentro de casa e nada. O bichano só queria tomar leite e dormir. Enquanto isso a catita se esgueirava aqui, se escondia ali e continuava a passear livremente pela casa.
E a família ia ficando cada vez mais irritada e com medo da catita. O pobre animalzinho não fazia nada de mal. Até comia uns bichinhos nojentos que sempre aparecem nessas casas de campo.
Mas a família não estava nem aí. Sua obsessão era exterminar a catita a todo custo. Não importa se os bichinhos nojentos sumiram depois que ela apareceu. A sua simples visão era nojenta e irritante. E, com certeza, devia estar roubando comida da cozinha. Mas ninguém nunca comprovou isso.
Enfim, passado um tempo e a catita sempre resistindo e, já perdendo o controle à simples menção da existência do pequeno animal, resolvera que aceitariam qualquer medida que aparecesse, desde que desse sumiço na criatura.
Foi aí que, em um momento de suprema loucura, foi sugerido que colocassem uma cobra dentro de casa. Cobras comem rato, então, o destino da catita estaria traçado.
Alguns amigos e os empregados diziam que isso era loucura. Que não fazia sentido por em risco a família, só por causa de uma pequena catita. Mas, ensandecida e movida por uma raiva sem tamanho pelo resistente bichinho, não mudaram de opinião. Diziam querer qualquer coisa, contanto que a catita fosse exterminada.
E assim foi feito. Capturaram a primeira cobra que apareceu no meio das árvores e a soltaram dentro de casa. Qualquer coisa é melhor que essa catita irritante e irreverente.
Dito e feito. A cobra cumpriu seu papel na primeira noite. Comeu a pobre catita de uma vez só e, de barriga cheia, foi procurar um local para descansar e... sumiu.
E, ninguém conseguia mais achar a cobra. Os empregados logo foram pedindo demissão e indo embora, porque se recusavam a trabalhar em um local onde havia uma cobra escondida.
Chamaram bombeiro, caçadores, gente acostumada no mato e ninguém conseguiu achar a danada da cobra.
A família resolveu antecipar o fim das férias, trancou a casa e voltou pra cidade na maior pressa, pois, depois de muitas confabulações, os especialistas chegaram à conclusão que a tal da cobra era do tipo bem venenosa.
Bem, se conseguiram achar a cobra eu não sei. Mas que até hoje se arrependem da decisão de terem colocado ela lá, ah isso se arrependem. E as férias na fabulosa casa de campo? Ah, essas, nunca mais foram as mesmas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

DIALÉTICA DA DECEPÇÃO


Por Rossana Menezes

Junto com toda a agressividade e todas as mentiras propagadas nessas eleições, especialmente nesse segundo turno, uma coisa tem me intrigado bastante que é esse discurso de alguns eleitores de Aécionever (que se dizem ex-eleitores do PT) vem repetindo como papagaios: esse de que o" PT me decepcionou, o PT está envolvido com corrupção até a tampa", "Já fui militante, já levantei bandeira, mas o PT me decepcionou", porque ele vem sempre vazio,  sem argumentos.
 
Eu gostaria de saber se essas pessoas REALMENTE acharam em algum momento que o governo do PT seria livre de corrupção? Um partido que tem 1.549.180 filiados! É Sério isso, produção? Por que eu não acredito que alguém, adulto, inteligente, estudado, viajado, informado, realmente tivesse essa ingenuidade de achar que o PT ia chegar no governo e a corrupção ia sumir do Brasil. Corrupção tem em todos os partidos, em todos os países do mundo. No Canadá tem político corrupto... na Alemanha tem corrupção... onde houver seres humanos haverá corrupção. Agora sabe qual é a diferença entre a Alemanha e o Brasil? É o combate, a punição das pessoas envolvidas. Agora vamos lá, por que eu vejo muita gente com esse discurso e gostaria de entender. E eu estou aqui partindo do princípio que você NÃO acreditava que não existia corrupção no PT por que isso destoa de qualquer raciocínio lógico. Então me diz, por que foi que o PT te decepcionou tanto? 

 
Terá sido as 1.273 operações da PF e do MPU, com mais de 15 MIL presos no COMBATE à corrupção, incluindo políticos do próprio PT (contra apenas 48 investigações durante o governo do PSBD)? O PT deu autonomia à procuradoria-geral - e Janot vem fazendo um trabalho exemplar. TRIPLICOU o orçamento da PF, de 1,5 bilhão para 4,7 bilhões.

Terá sido a criação do o Portal da Transparência (http://www.portaltransparencia.gov.br/) e a aprovação da Lei de Acesso à Informação que antes era mantida embaixo dos panos no governo do PSDB? Aqui vale lembrar também que não houve desvio de dinheiro público no famoso mensalão do PT que tanta gente abre o bocão para falar. Foi compra de voto (o que é um absurdo) com dinheiro privado. Diferentemente do PSDB que está envolvido em 9 dos dez maiores escândalos de corrupção do país, envolvendo dinheiro público.

Terá sido o fato do PIB ter crescido de R$1.477 Bilhões em 2002 para R$4.837 em 2013 (Fonte IPEA)?

Foi o Brasil ter saído da 13a economia mundial pra 7a?

Terá sido o fato das falências requeridas por empresas terem caído de 19.891 em 2002 para 1.758 em 2013 ? Fonte IPEA

Terá sido o fato de a inflação ter caído de 12,53% ao ano em 2002 para 5,91% em 2013? Fonte IPEA

Talvez tenha sido o fato do salário mínimo ter subido de R$364,84 no governo do PSDB para R$724,00 em 2014...

Te decepcionou o fato da taxa de pobreza ter diminuído de 34% no governo do PSDB pra 15%? Ou foi o fato de o Brasil estar PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA fora do mapa da fome da ONU?????? Os 36 MILHOES de brasileiros que saíram da linha da pobreza? É por causa do bolsa-família? Um programa utilizado em vários países do mundo, inclusive nos EUA e reconhecido e premiado pela ONU?

O IDH subiu, as reservas cambiais subiram, a gente não deve mais dinheiro ao FMI, a gente não se curva mais aos EUA, o Brasil passou por uma crise mundial sem entrar em recessão. 

Pergunto ainda se o que te decepcionou foi o fato de que o Brasil tem a uma taxa de desemprego menor do que a do Canada e ter saído de 12,5% em 2002 pra 4.9% em 2014? 

Terá sido a criação do ciências sem fronteiras? Ou do Pronatec que deu oportunidade a 8 milhões de jovens de estudar? Ou a criação de 563 escolas técnicas (contra apenas 11 criadas no governo do PSDB)? Ou ainda as 18 Universidades Federais (contra ZERO criadas no governo do PSDB) totalizando um investimento de 91 BILHOES de reais em educação (contra 19 durante o governo Tucano)?? Foram as cotas? Que deram oportunidades a pessoas pobres de fazerem um curso universitário e melhorarem de vida?

Foi a valorização da Petrobras, dos bancos públicos? Foi o aumento das exportações de 60 pra 242 BILHÕES de reais???

Me explica, por que eu realmente não entendo. Eu entendo que tá longe de estar perfeito, eu entendo que você ache que podia estar melhor e que mais poderia ter sido feito. Eu entendo e concordo, apesar de saber como as máquinas dos governos funcionam, pois já acompanhei de perto, e sei que é muito mais difícil do que o nosso coração sonhador consiga imaginar. Mas certamente poderia estar melhor, disso eu não tenho dúvida.
 
Agora outra coisa que eu não tenho a menor dúvida é que votar em Aécio e trazer o PSDB com sua política neoliberal não vai melhorar em nada. Pelo contrário, só vai levar o nosso amado Brasil pro buraco que ele estava quando o PSDB estava no poder. O que não faltam são DADOS implicando Aécio em desvio de dinheiro no governo de Minas Gerais. Educação sucateada (e aqui eu te lembro que a Educação básica e ensino médio são responsabilidade dos governos municipais e estaduais, não do governo federal, como prevê a nossa constituição). São Paulo se acabando numa seca que todo mundo sabia que viria, e que até a ONU em seu relatório oficial já afirmou que foi culpa do governo do estado, que é do PSDB. Então por favor não me diga que votar em Aécio vai trazer algum bem para o nosso país.
 
O SAMU de Minas Gerais está sucateado (e aqui eu lembro também que de acordo com o artigo 198 da nossa constituição, Saúde é de responsabilidade partilhada entre os governos federais, estaduais e municipais. E o governo Dilma já investiu 20 Bilhões de reais em saúde só em 2014). E votar branco/nulo nada mais é do que uma atitude covarde. Lavando as mãos, assim como Pilatos, se eximindo da responsabilidade de cobrar um país mais justo. E o Brasil, por mais que você não queira enxergar, por mais que você teime em repetir sempre o mesmo blábláblá que eu já ouvi tantas vezes, é hoje um país mais justo, menos desigual. E eu voto em Dilma pra que todo esse trabalho que foi feito em 12 anos, todo esse esforço de juntar os caquinhos que o PSDB deixou não seja jogado no lixo.