quarta-feira, 8 de março de 2017

PORQUE, PARA AS MULHERES, TODO DIA É DIA LUTA!



Hoje eu não quero flores, não quero chocolates, não quero presentes embrulhados em papeis bonitos. Hoje não é o meu aniversário, o Dia das Mães ou dos Namorados.

Hoje eu não quero votos de um feliz dia ou parabéns porque é simplesmente o Dia Internacional da Mulher. Não foi para isso que esse dia foi criado. Não sou feminista ou ativista das causas feministas. Sou mulher. E hoje, o que quero, é o que ainda não conseguimos conquistar, depois de tantos anos de luta. Sabem o que mais quero hoje? RESPEITO.

Quero respeito às minhas escolhas, à minha opção de gênero, à maneira como visto, ao meu corpo, ao meu trabalho, à minha vida.
Para quem quiser prestar alguma homenagem nesse dia de hoje, vou dar uma dica: Em lugar de Feliz Dia da Mulher, diga assim: parabéns mulheres que acreditam em sua força, que lutam bravamente por um mundo onde não haja mais misóginos. Um mundo onde a igualdade de gêneros seja uma realidade e não apenas palavras politicamente corretas.

O Da Internacional da Mulher foi criado não para se dar presentinhos, flores ou chocolates. Existe para lembrar às mulheres que a sua luta não tem trégua. Conquistar nossos direitos é uma luta diária. Portanto, se quer homenagear as mulheres hoje, apoie nossas lutas, vibre com nossas conquistas, não se sintam ameaçados ou diminuídos por nossos sucessos. Divida as tarefas domésticas sempre e sem reclamar. Lembre-se que  cuidar da casa e dos filhos não é obrigação apenas de uma parte do casal. É uma obrigação das duas partes que dividem um teto e uma família.

Parabenize as mulheres por sua força. Nada de Feliz Dia da Mulher. E sim: Parabéns por serem sempre guerreiras, sem fugir da luta, mergulhando em suas batalhas do dia a dia com garra e coragem.

O que temos a comemorar? Muitas conquistas que deveriam ser naturais, como o são para os homens: sermos donas do nosso próprio dinheiro, do nosso corpo ou, simplesmente, poder votar. 

Homens deem às mulheres o direito de se vestirem como quiserem sem ter que andar nas ruas ouvindo gracinhas e cantadas. Tenho pena dos homens que não conseguem enxergar as mulheres como seres humanos e veem nelas apenas objeto de prazer. Pobres mentes essas que, além de sexo, futebol e cerveja, não conseguem pensar em mais nada. Quanta ociosidade em um cérebro que até poderia ter sido brilhante.

Portanto, hoje é um dia de celebração pela lutas e pelas conquistas. Um dia para rememorar a luta e o martírio daquelas mais de cem mulheres queimadas em uma fábrica de Nova York.

Um dia para trazer à tona uma parte da história, que pouca gente sabe, comenta ou relembra hoje: o centenário da participação importante das mulheres na Revolução Russa. A retirada do poder dos Czars foi protagonizada pelas operárias da indústria têxtil, que organizaram um ato público, de forma espontânea, insurrecional e pela base.

Era o Dia Internacional da Mulher, 23 de fevereiro, instituído sete anos antes, na Segunda Conferência de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague com delegadas de dezessete países, com um caráter internacional e cuidadosamente preparado, tendo como foco a promoção da propaganda pelo voto feminino. E, de acordo com Tróstski em sua “História da Revolução Russa”, as mulheres foram a vanguarda da Revolução de Fevereiro.

Só para esclarecer, à época era usado o calendário juliano e, nele, o dia 23 de fevereiro corresponde ao dia 08 de março no calendário gregoriano, usado atualmente.

Temos muitas batalhas ainda pela frente. Que elas nunca nos amedrontem ou nos façam recuar.

Que hoje consigamos conquistar mais respeito e derrubar preconceitos. E, se os machões, misóginos e afins, pararem para pensar, eles podem até se sentir superiores e poderosos, mas jamais poderão fazer tudo o que uma mulher consegue fazer. Afinal de contas, se, de repente, as mulheres fossem extintas da face da terra, deixando apenas vivos os homens, a humanidade logo também seria extinta. Já, se ficassem só as mulheres, a humanidade continuaria. Pensem nisso e respondam, no final das contas, o poder é de quem mesmo?



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

E EU... GOSTAVA TANTO DE VOCÊ...


Para nós, nordestinos, quando alguém fala “coxinha”, logo vem à cabeça (e ao paladar) o delicioso salgado, feito de batata e galinha desfiada, às vezes com catupiri, em sua versão “large”, que não pode faltar nas festas de aniversário, principalmente se forem infantis. Menos nas festas mais sofisticadas. Porque nessas, servir coxinha é “brega”. Mas, a palavra tem outro significado, que faz mais sentido para os paulistas do que para nós, meros moradores de uma parte do Brasil que o pessoal lá de baixo gostaria que não existisse.

“Coxinha” é uma gíria paulistana que eles acham que se espalhou pelo Brasil, a partir dos anos 80. Surgiu para, pejorativamente, chamar os policiais de São Paulo que eram visto, com frequência, comendo coxinhas em lanchonetes. Ou, mais depreciativamente ainda, também faria referência aos policiais porque tinham baixo poder aquisitivo e seu vale-refeição só dava mesmo pra comprar coxinha.

Posteriormente, a gíria ganhou outra conotação, ainda em São Paulo, que definiria, mais ou menos, o que por aqui chamamos de “Mauricinho” e Patricinha”. Mantendo, entretanto, o seu caráter depreciativo. Em sua nova versão paulistana “Coxinha” passou a designar as pessoas conservadoras, que se preocupavam em se comportar de maneira a serem aceitas pela maioria. Por exemplo, houve uma época no Brasil, não muito distante, em que ser politicamente correto era moda. Então, nessa época, os coxinhas eram politicamente corretos, acreditem se quiserem. Alguém lembra desse tempo? Eu lembro. Era um tempo mais respeitoso.

Ainda dentro dessa definição paulistana para “Coxinha”,  seria alguém com alto poder aquisitivo, usando roupas de grife e assíduos frequentadores da “night” ou das baladas, se preferirem. Nem sei algum dos dois termos ainda é atual. Extremamente preocupados com a imagem, os “coxinhas” passam muito tempo na academia, para ficarem “sarados” ou, “rasgados”, como eles falam entre si, passando, dessa forma, muito tempo na academia... de ginástica.

Ah, não podemos esquecer que há também algumas palavras ou neologismos que são parte do vocabulário dos “coxinhas” paulistanos como por exemplo: "tenso", "futebas" (significa futebol), "doleta" (para se referir ao dólar), etc. Para definir que algo é legal, muito bom etc. os termos usados são: "top", "topíssimo", "premium" e "insano". O que talvez distinga os nossos “mauricinhos” e ”patricinhas” nativos, dos “coxinhas” paulistanos seja o tempo que dedicam à cultura ... do corpo.

A partir de junho de 2013, aí sim, a gíria  se espalhou pelo Brasil, com uma espécie de adendo ao significado paulistano anterior. Entretanto, a partir de então, com certeza, uma característica já não faz mais parte de sua definição: ser politicamente correto.
Então, de acordo com o que pesquisei na internet (sim, me dei a esse trabalho), as características de “coxinha” seriam : pessoa da elite financeira ( ou que pensa que faz parte dela), política e moralmente conservadora, sempre preocupada com a aparência e o status social, que defende os chamados “valores familiares” (questionáveis como valores, pelo menos por mim), que não têm vergonha de serem racistas, classistas e homofóbicos.  Pessoas que acham que chamar alguém de “gay” é xingamento e que não respeitam as religiões de origem afro e também usam palavras como “macumbeiro” para xingar os que fazem parte dessas religiões.

Odeiam Lula, Dilma, PT, a esquerda em geral. Gritaram e bateram panelas contra a corrupção, mas agora estão quietos e sequer ensaiam uma postagem nas redes sociais criticando o atual governo e seus integrantes, mesmo que, a partir do presidente, boa parte esteja sendo citada, indiciada, processada ou prestes a ser presa, se não estivesse sobre a proteção das asas de norte a sul federais.

Adoram postar xingamentos, piadas de mau gosto e depreciativas em relação à esquerda. Postam tudo que falar mal do PT, sem se dar ao trabalho de conferir se é ou não verdade. E, quando por acaso, constatam que é mentira, não estão nem aí pra isso. Afinal, de acordo com a lógica “coxista” se não é verdade, poderia ser. Então deixa pra lá. Postam ainda dicas de como matar uma pessoa em cirurgia e comemoram a morte de qualquer um que esteja ligado à esquerda. Pare eles é como se essas pessoas fossem personagens de um filme, de uma novela e não seres humanos, de carne e osso, com sentimentos e uma vida de verdade.

O “coxinha” se apropriou das cores verde e amarela e saiu às ruas gritando “quero o meu Brasil de volta”. Eu, particularmente, fiquei muito triste com isso. Logo eu, que era tão patriota, agora não consigo mais usar uma camisa amarela da seleção. Para mim passou a significar tudo que mais abomino em um povo: alienação, preconceito, falta de respeito e intolerância. Sim, porque outra característica do  “coxinha” é a intolerância, ampla, geral e irrestrita.

Eles acham natural piadas racistas, homofóbicas ou classistas. Acreditam que brincadeiras desse tipo não são ofensas. As pessoas é que são sensíveis demais e se ofendem por bobagens. Rir de piada ridicularizando as pessoas negras, homossexuais ou pobres, é coisa natural, um direito de se divertirem.  E quando se menciona que o direito de cada um termina onde começa o direito do outro, dizem que quem se ofende é que deveria respeitar o seu direito de falar o que pensa. Riem de vídeos que fazem piadas com mortes, até mesmo de bebês, de piadas com estupros, preconceito racial ou religioso, pessoas gordas ou magras demais, dos nerds, dos que são os mais estudiosos da sala, enfim, riem e ridicularizam tudo que lhes incomode. E acham super natural.

Estão confortáveis e seguros agora, porque acreditam que os pobres, os negros, os homossexuais, os “petralhas” a esquerda em geral, estão neutralizados, não são mais uma ameaça ao seu padrão de vida. Sentem-se à vontade para não cumprir a Lei das Domésticas e sabem que, com todas as PECs que o governo está aprovando, a população brasileira vai ficar cada vez mais pobres e, com isso, mais dependente da elite financeira para sobreviver. Dão as cartas e jogam de mão, como diz o velho ditado.

E, feito rastilho de pólvora a intolerância a falta de respeito ao próximo e a intransigência, se espalharam Brasil afora, contaminando até mesmo quem não faz parte dessa tal elite financeira e que está sendo prejudicado por tudo o que acontece no país. Alienados, anestesiados, os “coxinhas” da parte inferior da pirâmide financeira aplaudem as reformas e medidas, que vão lhes tirando pouco a pouco, todos os direitos conquistados a duras penas e, alguns, até se sentem orgulhosos de serem chamados de “coxinhas”. É como certa vez me disse um amigo “têm bolso de trabalhador da cana e cabeça de canavieiro”.

Só para constar para ser, oficialmente, “coxinha”, não precisa se enquadrar em todos os itens que definem o perfil. Ser da elite financeira, por exemplo, não tem sido uma condição essencial para o enquadramento.

Apesar de muitos terem experimentado a fatia do bolo que os governos do PT repartiram, sem usar a velha de desculpa de “esperar o bolo crescer para fatiar”, hoje não lembram mais do delicioso sabor daquela fatia do bolo. Apagaram da mente como foi possível a ascensão social, o acesso às universidades e à casa própria.

E, muitos fazem isso para serem aceitos e continuarem a fazer parte dos círculos de amizade. Porque outra consequência muito cruel desse tempo é que as pessoas não estão mais conseguindo interagir com quem pensa politicamente diferente delas. Amigos deixaram de se ver regularmente ou ao menos de se falarem por telefone ou nas mídias. Os “petralhas” não são mais bem-vindos nas reuniões sociais de amigos, onde antes jamais deixariam de ser convidados. Vivemos em uma nova Era. A Era do “quem não está comigo está contra mim”, mesmo que o “não estar comigo” signifique apenas não concordar com as novas posições políticas.

Ainda que extraoficialmente, fui deixando de ser convidada, por alguns amigos, para encontros, almoços ou jantares, comemorações, aniversários, sem alarde, silenciosamente, mas, com toda certeza, por minha posição política, que faço questão de deixar muito clara. Mas, por outro lado, ainda tenho grandes amigos que têm opiniões políticas diferentes das minhas, mas que convivemos maravilhosamente bem. Até hoje, mesmo divergindo na política, temos em comum algo essencial: respeito pela posição do outro. Comigo esses amigos têm compartilhado as emoções, as comemorações, as festas, os aniversários e os momentos dolorosos e sofridos. Seguimos com a nossa amizade, por inteiro, como se houvesse um pacto sem palavras, onde, subliminarmente estaria acordado que amizade vai continuar na concordância e na divergência.

Uma observação: ser de direita e ser coxinha não são sinônimos. Para ser coxinha, tem que ser de direita. Mas, para ser de direita, não tem que ser coxinha. Ainda bem.

Com tudo isso que vem acontecendo no Brasil, com tristeza vi se perder em mim o orgulho de ser brasileira, o amor por minha pátria, a emoção de cantar o hino nacional, o respeito ao voto e a alegria de cantar, com Ivan Lins,  “aqui é o meu País, Dos sonhos sem cabimento, aqui sou um passarim, que as penas estão por dentro, por isso aprendi a cantar, voar, voar, voar,me diz, me diz, como ser feliz em outro lugar”.

Hoje estou mais para cantar com Tim Maia “Não sei por que você se foi, quantas saudades eu senti, e de tristezas vou viver, e aquele adeus não pude dar, você marcou em minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro, e da solidão que em minha porta bate. E eu, gostava tanto de você, gostava tanto de você. Eu corro, fujo desta sombra, em sonho, vejo este passado, e na parede do meu quarto, Ainda está o seu retrato. Não quero ver pra não lembrar, pensei até em me mudar, lugar qualquer que não exista, o pensamento em você”.

Logo eu. Que gostava tanto tanto de você.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O TEMPO

Deixo aqui um belo poema de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE como mensagem para o novo ano.

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.

Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...

Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.

E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade."


Feliz 2017

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O DIA EM QUE DOM PAULO FOI SEQUESTRADO


O ano era 1999. Tempos difíceis para a arquidiocese de Olinda e Recife que, depois de 21 anos tendo como arcebispo e pastor Dom Helder Camara, estava, há 15, tendo um arcebispo totalmente oposto, que não aprendeu a ser pastor e muito menos a ouvir as suas ovelhas.

Enquanto falávamos sobre a morte de Dom Paulo, Sérgio me lembrou de um fato que eu meio que havia apagado da memória e que aflorou quando ele mencionou o "sequestro de Dom Paulo" 

Com a morte de Dom Helder no dia 27 de agosto, foi criada toda uma polêmica sobre as celebrações das missas de sétimo e trigésimo dia.

Sem consultar ninguém Dom José convidou Dom Eugênio Sales para celebrar a missa de sétimo dia, em uma prova de que não tinha a menor noção do que estava fazendo, uma vez que Dom Eugênio, por ser de uma linha totalmente oposta a Dom Helder, não era, nem de longe, uma opção sensata.

Temendo que para o trigésimo dia também fosse convidado alguém sem a menor identificação com Dom Helder, um grupo se reuniu e convidou Dom Paulo Evaristo Arns para vir celebrar o trigésimo dia da partida do Dom.

Dom José Cardoso engoliu a escolha, não muito satisfeito. A ideia era pegar dom Paulo no aeroporto, levá-lo para a Sé de Olinda para a celebração e depois acompanha-lo à casa de Lucinha Moreira, onde uma gostosa sopa aguardava a todos.

Acontece que dom José resolveu que deveria levar Dom Paulo para jantar com ele. E, ciente disse, um grupo formado por alguns membros do Jornal Igreja Nova armou uma estratégia para que Dom José não se apossasse de Dom Paulo. Logo que acabou a celebração um dos membros do Igreja Nova foi pegar o carro para trazer para a porta da Sé, enquanto outros quatro iam até a sacristia para escoltar Dom Paulo até a saída.

Estava quase dando tudo certo quando, a poucos metros do carro, já de portas abertas, aguardando Dom Paulo, dom José surge ao lado dele e segurando o seu braço insiste para ele o acompanhe. Dom Paulo explica que já havia assumido um compromisso anterior com um outro grupo e que não poderia cancelar. E Dom José, nervoso, olho piscando e boca trêmula não soltava o braço de Dom Paulo, insistindo que ele deveria acompanhá-lo.

Vendo a iminência de Dom Paulo ser desviado do encontro combinado por um Dom José irredutível, com a mão grudada no braço do cardeal, o pessoal resolveu soltar Dom Paulo e levá-lo para o carro, mesmo sob o protesto de Dom José. Alguém chegou a dizer ao arcebispo de Olinda e Recife que depois levariam Dom Paulo Para se encontrar com ele e, arrancando, com delicada firmeza, a mão de Dom José do braço de Dom Paulo, o escoltaram, na maior pressa até o carro e saíram dali a toda.

Depois do susto e da agonia, ficamos pensando no que teria acontecido se Dom José não tivesse soltado o braço de Dom Paulo de jeito nenhum. E seguimos em frente para a deliciosa sopa que nos aguardava e para uma noite privilegiada, conversando com Dom Paulo.


Sim, eu estava no meio dessa empreitada e sim, eu forcei Dom José a soltar Dom Paulo, tirando a mão dele de seu braço. E aí talvez você pense que éramos loucos ao fazer esse pseudo – sequestro, que, na verdade, não foi propriamente um sequestro já que Dom Paulo já havia combinado conosco a programação após a celebração e estava indo de bom grado. Na verdade, pensando bem, foi mesmo um resgate.


Não, não éramos loucos. Éramos um grupo de pessoas que lutava para que a arquidiocese de Olinda e Recife voltasse a ter um pastor.
E talvez você se pergunte: será que ela não se arrependeu do que fez? Jamais me arrependi. E nem acho que ninguém que participou do “sequestro” tenha se arrependido. Foi a primeira e única vez que vi Dom Paulo pessoalmente e acho que para quase todos ali presentes foi assim também.  

Então cada momento de tensão e sufoco foi recompensado por passar uma noite bebendo na fonte as sabedoria de um profeta.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

QUANDO UMA TRAGÉDIA É MAIOR QUE A OUTRA?


Não assisto à programação regular das TVs, nem aberta, nem fechada. Não gosto realmente dos noticiários da mídia tradicional. Acompanho as noticias pela internet, escolhendo o que quero ou não quero ler. Quero preservar esse direito. Isso, algumas vezes, me deixa desatualizada por um tempinho, pois só me inteiro do que acontece no mundo quando ligo o computador, pela manhã. A não ser quando a notícia já está nas mídias sociais, que, por questões profissionais, vejo logo que acordo.

E ontem fui surpreendida, no instagran, por algumas pessoas postando a bandeira de um time de futebol sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar. Na verdade, gosto tanto de futebol quando de televisão. Ou seja, zero. Então eu não conhecer um time de futebol não é novidade. Mas, enfim, acabei descobrindo o motivo das postagens logo depois. E, desde então, percebo que na mídia não se fala em outra coisa. O que é também muito comum pois a mídia espreme das tragédias até a última gota de sangue.

Um time internacional ofereceu jogadores para ajudar o chapecoense a se reestruturar, o time que ia jogar com ele pediu para cancelar a final e declarar o time de Santa Catarina o campeão. A torre Eiffel se iluminou de verde, analistas do mundo todo dão sua opinião sobre o acidente e muitas e muitas notícias continuam rolando por aí. Em nível mundial.

Foi uma tragédia? Claro que foi. De Grandes proporções? Claro que sim. Mas foi uma tragédia porque morreram mais de setenta pessoas. Foi uma tragédia porque morreram pessoas que eram pais, mães, irmãos, irmãs, filhos, filhas, sobrinhos, sobrinhas, netos, netas, primos, primas ou amigos ou amigas de alguém. Não importa se jogavam futebol, vendiam sapatos, davam aulas ou viviam de renda. Morreram pessoas, ponto. Tudo indica que foi por aquela economiazinha desprezível que os empresários fazem para aumentar os lucros e que já derrubaram prédios, viadutos e aviões. Aquela economia que estica o prazo da manutenção ou que encolhe a quantidade de combustível a ser usada no voo.

A tragédia se torna maior por saber que se o avião tivesse tido permissão para pousar um pouco antes ou se a quantidade de combustível fosse um pouco maior, todas aquelas pessoas estariam vivas hoje.

Diante de todos os comentários de lamentações pelo time que se desfez, pela dificuldade que o clube vai ter em reorganizar o time e coisas afins, eu me pergunto: alguém vai oferecer um pai para emprestar a alguma família? Alguém tem um filho que possa ficar temporariamente no lugar de um que morreu no acidente? Alguma noiva, esposa, namorada vai querer um companheiro temporário para aplacar a sua dor? NÃO. Porque ninguém pode ser substituído na dor de uma perda, na tristeza de uma saudade que nunca mais vai acabar.

Quando soube da tragédia o meu primeiro pensamento foi: como estarão agora as famílias dessas pessoas? Porque isso é o que verdadeiramente importa.

Daqui a algum tempo o Chapecoense terá contratado novos jogadores, receberá um ou outro emprestado e voltará aos treinos. Provavelmente nos primeiros jogos entrará de luto, prestará homenagem aos que se foram e, depois, tudo se resumirá a uma homenagem em alguma estante ou parede do clube.

Mas e as famílias que perderam seus entes queridos? Por toda a sua vida sentirão a dor da perda e da saudade.

Então por que não deixamos de lado o fato de terem morrido jogadores de futebol e, em lugar de “sermos todos chapecoenses” não podemos ser todos solidários com as famílias que sofreram perdas tão duras e lamentarmos a morte de todos os que estavam naquele avião e que, de maneira inesperada e violenta, tiveram interrompido o seu futuro?

Pode parecer novidade mas futebol não é tudo na vida. E sim, existe vida inteligente além do futebol. Na verdade, posso até dizer que existe vida inteligente, apesar do futebol.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O DESAMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA


“Coisa bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido a tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve para nada”.


Ainda muito jovem, o telegrafista, violinista e poeta Gabriel Elígio Garcia se apaixonou por Luiza Márquez, mas o romance enfrentou a oposição do pai da moça, coronel Nicolas, que tentou impedir o casamento enviando a filha ao interior numa viagem de um ano. Para manter seu amor, Gabriel montou, com a ajuda de amigos telegrafistas, uma rede de comunicação que alcançava Luiza onde ela estivesse. Essa é a história real dos pais de Gabriel García Márquez e foi ponto de partida de 'O amor nos tempos do cólera', que acompanha a paixão do telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza. Um amor que resistiu ao casamento de Fermina com outro e que esperou por um final feliz por 51 anos.

Mas, o amor sobre o qual pretendo falar aqui, não é o mesmo dos pais de Gabo ou de suas personagens no livro. Também a cólera é outra, é a raiva, a ira, que tem alimentado o ódio que proliferou no país.

Quero falar do amor fraterno, que une não apenas duas pessoas romanticamente, mas que pode unir tantas quantas puder alcançar, em uma relação de amizade e que, como o amor do livro, poderia durar cinquenta, sessenta anos e até mesmo seguir mais e mais em frente, deixando suas sementes milênios no ar.

Quero falar desse amor que está sendo vencido pela cólera. Uma cólera que não é enfrentada, contornada, sequer desafiada e que, ao contrário, está ganhando e enfraquecendo sentimentos e amizades.
Sim, vivemos amores e desamores em tempos de cólera.

E, nesses tempos, em que telegramas foram substituídos por whatsapp e telegram, cartas por e-mails e álbuns de fotos e conversas entre amigos e familiares foram substituídos pelo Facebook, os amores deveriam estar se reforçando, se alimentado e se fortalecendo.

Mas, infelizmente, as redes sociais, como tudo nessa vida, têm dois lados. Um lado que aproxima e outro, cruel, que afasta.

Protegidos pela invisibilidade, pela incapacidade das outras pessoas poderem lhes olhar olho no olho, as pessoas tomam ar e digitam tudo o que, pessoalmente, não teriam coragem de dizer, seja de bom, seja de ruim. E os ataques vão acontecendo, cotidianamente, ferindo sentimentos, matando amizades, por vezes espalhando boatos que prejudicam a moral ou a vida profissional dos outros.


Perfis falsos são criados só para xingar, denegrir, ofender, destratar, humilhar. Postagens são criadas com o único intuito de magoar. E, enquanto isso, os alicerces que uniam amigos e famílias, vão se desintegrando.

E, o tempo passa tão rápido que, um dia, de repente, a gente se lembra daquele amigo, daquela amiga, que já não vemos há tempo, que sequer temos falado nas redes e percebe, com muita tristeza, que o amor, a amizade, não está resistindo aos tempos de cólera.

Se antes o que unia as pessoas eram os sentimentos, hoje eles não são mais suficientes para que amizades perdurem. Hoje, o fator dominante para manter as amizades é a opção política. Amigos inseparáveis antigamente, hoje mal se falam. Famílias excluem membros dos chats por expressarem opinião diferente da maioria do grupo. Até mesmo a cor da roupa que a pessoa usa pode provocar xingamentos e humilhações na rua.


E daí fico me perguntando se os pais de Garbo vivessem hoje a sua história, aqui no Brasil e cada um tivesse uma opinião política diferente, o amor que resistiu às proibições, à distância e ao casamento com outras pessoas, resistiria à divergência política? Esperaria anos e anos no ar?

Chico inicia sua belíssima música Futuros Amantes assim: “Não se afobe não que nada é pra já, o amor não tem pressa, ele pode esperar, em silencio, no fundo do armário, na posta restante, milênios, milênios no ar” e termina: “Não se afobe, não, Que nada é pra já, Amores serão sempre amáveis, Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber, Com o amor que eu um dia Deixei pra você”.

E daí, ouvindo a música fiquei pensando se, com tanto ódio, tanta amargura, solta no ar, como se amarão os futuros amantes? Acredito que temos a responsabilidade de deixar muito amor no ar para que ele se espalhe e nunca se acabe. Para que ele permaneça milênios no ar.

Por isso quero meus amigos de volta, quero poder me encontrar com todos os amigos e amigas que tanto quero bem, sem que os lados opostos na política coloquem um paredão entre nós. Quero ouvir o telefone tocar e falar com amigos que não me ligam há muito tempo. Quero poder me encontrar com as pessoas queridas como nos velhos tempos, antes do tempo da falta de amor em tempos de cólera.

Mais tolerância e menos irritação! Mais solidariedade e menos amargura! Mais carinho e menos guerras! Mais amor e menos cólera.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

LAVANDO A ALMA


O Recife amanheceu com suas ruas molhadas, como se as nuvens quisessem lavar a cidade, depois de uma eleição difícil e sofrida para os que votaram, realmente, de  acordo com a  sua opção política, seja de esquerda ou de direita e não movidos pelo ódio e pela alienação política.

As águas da chuva que começaram a cair ontem à noite pareciam querer limpar a cidade, da sujeira deixada pelo material de campanha espalhado em torno dos locais de votação e também as consciências dos que votaram em nome do ódio e não da cidade.

Em todo o país tivemos uma eleição movida por um ódio insano, cujo único objetivo era impedir que o Partido dos Trabalhadores elegesse seus candidatos. E não o que fosse melhor para a cidade.

Aqui no Recife não foi diferente. Como pode uma administração apática, insípida, que não tem nada de importante a apresentar, que não fez nada para melhorar a qualidade de vida da população, quase ter sido reeleita em primeiro turno?

Eram oito candidatos. Claro que a maioria não tinha real probabilidade de eleição. Na verdade, podemos dizer que três tinham. E, por isso mesmo, não se admite que a eleição quase tenha sido decidida no primeiro turno.

O ódio ao PT tem cegado as pessoas e as impedido de enxergar além de seu próprio umbigo.  Um ódio direcionado contra um Partido, camuflado de combate à corrupção, quando em praticamente todos os partidos existem denúncias, delações de parlamentares corruptos, mas que permanecem blindados pelo simples fato de que não foram eles que proporcionaram a oportunidade aos pobres de uma ascensão na escala social, que os fez chegar mais próximo de uma classe econômica abastada e egoísta, que não quer dividir com eles os espaços nos aviões, nos shoppings da vida ou nas salas de espera dos laboratórios e consultórios médicos.

Eleitores de Priscila Krause e de Daniel Coelho, ao ver que, nas pesquisas, João Paulo continuava em segundo lugar, mudaram seu voto para Geraldo Júlio para garantir que João Paulo não fosse eleito, não importando que, assim, estavam prejudicando seus próprios candidatos, praticando o chamado “VOTO ÚTIL”.

Votar a favor de um porque não se quer que outro se eleja é uma prova da despolitização gigantesca que se espalha pelo Brasil feito rastilho de pólvora. E, todos nós sabemos o que acontece quando o rastilho é consumido: uma inevitável explosão.

Se a atual administração estivesse sendo positiva, se a cidade do Recife houvesse melhorado, então a recondução do atual prefeito seria justificada. Mas, se apropriar de obras de governos anteriores e dizer que são suas, não torna isso verdade. Criar uma ciclo-faixa de lazer, aos domingos e feriados, não é melhorar a mobilidade na cidade. Embelezar a orla de Boa Viagem, construindo uma academia de Pilates em um dos jardins da avenida, não é melhorar a saúde dos recifenses. E inaugurar um parque não é ter como prioridade a preservação do meio ambiente.

Insegurança crescente, com a ocorrência de estupros que colocam as mulheres em uma situação ainda mais vulnerável e o aumento de assaltos, inclusive a ônibus, iluminação precária em muitas partes da cidade, trânsito caótico e ruas praticamente intransitáveis nos bairros, com estacionamentos e mão dupla que deveriam ser revistos, calçadas sem condições de uso por pessoas com dificuldade de locomoção, tudo isso sem falar nos problemas dos bairros mais afastados e menos favorecidos economicamente, são o relatório vivo de uma administração que não fez praticamente nada pelo povo da cidade, sobretudo pelos que mais precisam. E, mesmo assim, quase ganha no primeiro turno. Que justificativas encontramos para esse fenômeno?

Não conheço ninguém que esteja satisfeita com o atual prefeito. Porém, na hora de mudar isso através da legitimidade do voto, as pessoas preferem endossar uma administração incompetente a arriscar uma nova, como seria o caso de Daniel Coelho ou Priscila, desde que o PT não seja eleito. Quem perde? Os candidatos que não chegaram ao segundo turno? O PT que chegou por um fio? Ou a cidade do Recife que continua sob o risco da continuidade do descaso com a sua população? Ao quase levar o atual prefeito a uma vitória no primeiro turno, não foi dado um NÃO a Daniel, Priscila, Edilson ou João Paulo ou aos outros quatro candidatos. Foi dado um NÃO ao futuro do Recife.

O segundo turno não é fruto do acaso. É fruto da persistência, da perseverança dos que acreditam no Recife e querem que a cidade seja melhor administrada.

É uma segunda chance, uma nova oportunidade de mudar o que está aí. Novas alianças serão feitas, novas negociações, novos apoios. Se você acredita que a nossa cidade merece uma nova chance, no dia 30 de outubro vote então a favor da cidade.


O Recife merece ser uma cidade melhor. Pense nisso. No segundo turno dê uma chance ao Recife. Não vote em nome do ódio, vote em nome do amor.