Cansadas de viverem sozinhas, de vez em quando as letras resolvem se misturar na cabeça de algumas pessoas e, juntas, formam palavras, que formam textos que, dependendo do momento e da imaginação de cada um, tornam-se contos, ensaios, críticas ou até mesmo incríveis historinhas infantis.
Daí, surgem misturas fantásticas para saciar a nossa fome de beleza e nos levar a um mundo encantado que só a nossa imaginação, unida à imaginação de quem escreve pode desvendar.

terça-feira, 17 de março de 2015

O TAMANHO DA VERGONHA ALHEIA

Apesar de votar no PT desde 1989, não acho que o governo esteja perfeito, que está fazendo tudo o que tem que fazer. Tenho, como muita gente, críticas a muita coisa. Por isso respeito a oposição responsável que cobra o que tem que ser feito, que tem que ser consertado ou que precisa ser refeito. Mas, respeito o meu voto e acredito que a presidenta vai conseguir reorganizar as coisas e colocar o país no rumo certo.

Se na manifestação do dia 15 de março as pessoas tivessem ido às ruas para cobrar o cumprimento de promessas de campanha que julgam ainda não terem sido cumpridos, apesar de apenas três meses do mandato; se cobrassem a reforma política, mais rigor nas investigações e, com classe e educação, cobrassem o fim da corrupção, eu teria o maior respeito. Mesmo tendo a lucidez de saber que o fim da corrupção não depende do chefe de governo apenas. O fim da corrupção depende mesmo é de cada um de nós. Mas, enfim, pelo menos estaria havendo uma cobrança efetiva pelo combate a essa doença de caráter, enraizada em nossa cultura.

Mas não posso respeitar uma manifestação que vai às ruas com frases obscenas, incitando a violência ou querendo o fim de uma democracia conquistada com sangue, suor e lágrimas.

 Quando vi as imagens da manifestação do dia 15, nas ruas do Brasil, senti um certo choque. Não que tenham sido muito diferentes, em relação a sua essência, das manifestações anteriores. Mas, por observar que, mesmo depois de tantas críticas, avisos e a alertas, as pessoas foram às ruas levando as mesmas mensagens levianas, chulas, por vezes até mesmo violentas, quando falam que “comunista bom é comunista morto” ou penduram bonecos representando Dilma e Lula enforcados.

Em uma visão geral do que estava nas ruas, por exemplo, o que um estrangeiro que fale português pensaria? Se eu fosse estrangeira pensaria que o Brasil é um país de pessoas grosseiras, sem educação doméstica, sem conhecimento de história do próprio país e, ainda por cima, incoerentes.

OBSCENIDADES

O que podemos dizer de uma pessoa que veste uma camisa onde manda a presidente tomar ..... com todas as letras? Que é uma pessoa que tem uma educação refinada, como a gente supõe que deveria ter a elite branca deste país?
Em outra, que também me chocou, uma senhora, acredito que na faixa dos sessenta e poucos, carregava nas costas um cartaz, escrito à mão: “o povo está cansado de tomar” e daí, ao final do cartaz, havia uma grande seta apontando para vocês sabem onde. Em primeiro lugar, se essa senhora estava nas manifestações, com certeza não é uma pessoa do povo propriamente dito.  Tenho certeza que o povo não passou procuração para ela portar, em seu nome, um cartaz tão vulgar e chulo.
ATENTADO DE GÊNERO NÚMERO E GRAU

E o que dizer de uma mulher que porta um cartaz dizendo: “Feminicídio Sim  - Fomenicídio Não”, Fora PT.  Bem, pra começo de assunto o segundo termo nem existe. E quanto ao Feminicídio SIM? Então é errada a Lei que inclui o Feminicídio como crime hediondo? Prefiro pensar que a criatura que carregava o cartaz não tinha a menor ideia do que estava divulgando.

Duas crianças pequenas seguram um cartaz com quatro palavras escritas em formato de losango, com mais uma atravessada no meio e abaixo a pérola: triângulo da corrupção. Como assim? Se um losango tem quatro lados e as palavras são cinco, cadê o triângulo?

Prisão para Karl Marx! Essa foi uma das mais intrigantes. Como prender uma criatura que morreu em 1893? Desafio e tanto para quem propôs a prisão dele. Mas daí, passado o primeiro impacto, li o resto do cartaz e estava escrito “de Garanhuns”. Ah! Então mudou tudo. Era a Lula que ele estava se referindo.
Outro cartaz rico em asneira dizia “Fora Paulo Freire”. Fora como? Gente, ele faleceu em 1997 e agora querem tirar ele de onde? Da educação brasileira ou do reconhecimento internacional onde ele está enraizado como o maior educador do Brasil e um dos maiores do mundo? Paulo Freire foi  homenageado por instituições como Harvard, Cambridge e Oxford. Desde 2012, ele é considerado o Patrono da Educação Brasileira.  De onde saem tantas asneiras?

SANTA INCOERÊNCIA

Na avenida Boa Viagem, de acordo com a imprensa, as pessoas cantavam “Caminhando”, de Geraldo Vandré. Como assim pessoas que participavam de uma manifestação onde eram erguidas faixas e cartazes pedindo a volta da ditadura,  cantavam o hino dos que lutavam contra a ditadura?  E, mais intrigante ainda é as pessoas estarem nas ruas, protestando livremente contra o governo, xingando, escrachando, pedindo a morte da presidenta e do maior líder político do país, quererem, justamente, a volta de um tipo de governo que vai tirar de todos, inclusive deles, o direito de sequer ser contra o governo, quem dirá ir às ruas e protestar sem ter pagar com a vida por isso.
Fiquei esperando que começassem a cantar Apesar de Você e Vai Passar, mas parece que não chegaram a esse nível de incoerência e ridículo. Sei lá, de repente podem pensar que Chico escreveu pensando em Dilma quando diz “apesar de você,  amanhã há de ser outro dia”.

GOLPE NA LÍNGUA PÁTRIA

Em outra imagem uma jovem segura alegremente um cartaz onde se lê, escrito à mão: “Fim da corrupção com a prissão dos corruptos. PRISSÃO?

Em outra imagem um carrancudo senhor idoso porta o seguinte cartaz:Lula, anti-cristo , marginal. Só para esclarecer, marginal é quem vive à margem da sociedade, excluído dela, o que não é o caso de Lula, evidentemente. Anticristo? Sério?
I SPEEK ENGLISH

E as faixas em inglês? Minha gente, o que foi aquilo? Um pedido de ajuda aos estrangeiros? Ou será que queriam facilitar o trabalho da imprensa internacional?  Quando vi isso pensei com os botões quem nem tinha: interessante, escrevem em inglês, mas não entendem nada de história do Brasil e desconhecem as regras gramaticais de sua própria língua. Onde será que estudaram? Mais uma coisa intrigante.

INCITANDO A VIOLÊNCIA

Depois assisti a um vídeo onde jovens, adultos, idosos e crianças se refestelavam em pisar e chutar uma camisa do PT. Essa cena patética me lembrou brigas de crianças por causa de futebol, um querendo destruir a camisa do outro. E daí me lembrei que quando essas crianças crescem, formam as torcidas organizadas. Torcidas que brigam entre si com violência, que já terminou com várias mortes.
POLITIZAÇÃO ZERO, FUTILIDADE MIL

Mas uma das imagens que mais gostei de ver foi a de duas jovens sorridentes, de cabelos loiros, vestindo camisetas estampada com a foto de uma bolsa de grife e escrito em cima: “Presidente queremos nossa bolsa”. A imagem, para mim, era a mais pura representação da elite branca brasileira, cuja maior preocupação é andar na moda, não repetir roupas e, é claro, só usa grife.

LIÇÃO DE CIDADANIA?????

Depois da tão anunciada “lição de cidadania jamais vista neste país” tive esperança de que o nível de protestos fosse outro, com faixas pedindo a punição dos envolvidos em corrupção, uma investigação cada vez maior no escândalo das contas na Suíça e que exigissem a plenos pulmões a reforma política para que seja drenada a corrupção na política.

Lição de cidadania? O que vimos foi uma lição de vulgaridade, baixaria, falta de conhecimento da história do Brasil, da língua português e até de geometria.

Vimos pessoas com raiva, com ódio, sem nem saber exatamente por que.

Acredito que tenha havido pessoas que realmente estavam ali conscientes, exercendo o seu direito de protestar contra a corrupção e até mesmo contra atos do governo que não ache certos.

Mas, no balanço geral, houve de tudo, menos cidadania ou politização.

Passada a manifestação fica aquela sensação de desconforto de pertencer à mesma nacionalidade de quem vai às ruas pedir a morte de alguém, como se isso fosse uma coisa absolutamente normal. Fica a tristeza por ver que as pessoas que tiveram oportunidade de estudar nos colégios mais caros, não aprenderam muita coisa, sequer têm educação.

Uma coisa fico me perguntando, quando tudo isso passar, o governo se reorganizar, as manifestações cessarem e a mídia desistir de derrubar o governo e resolver voltar ao seu papel de informa, divertir e educar, as pessoas que xingaram, berraram impropérios contra os líderes políticos do PT e desejaram a sua morte, que escreveram obscenidades em suas roupas, que pediram o fim “da ditadura do PT” colocando no lugar uma ditadura militar, será que vão acordar e sentir vergonha do que fizeram? Tomara que sim, porque se quando caírem na real e a lucidez voltar, se essas pessoas não se arrependerem, e insistirem em continuar fazendo essas mesmas coisas, eu que sou patriota, que sempre tive orgulho do meu país, passarei a ter, definitivamente, vergonha de ser brasileira.


sexta-feira, 6 de março de 2015

O DIFÍCIL TRÂNSITO NOSSO DE CADA DIA

Por Rejane Menezes



Não posso falar por outras cidades, mas, com certeza, a vida dos recifenses é um horror quando o assunto é locomoção.

Na semana passada dois protestos travaram a cidade. Ir da zona Sul para o Centro foi impraticável. Engarrafamentos enormes se espalhavam por todo lado, fechando os pontos de encontro entre as diversas zonas da cidade. Para onde se ia, lá estava o aglomerado infindável de carros.

 
Todos  apontam a bicicleta como um meio de locomoção limpo e eficiente. Bem, aqui no Recife, andar de bicicleta aos domingos e feriados é ótimo, com as ciclo faixas ativadas, sinalização própria, automóveis sendo obrigados a andar mais devagar. Uma maravilha. Mas só serve mesmo para o lazer. As Ciclovias, como da Av. Boa viagem, são poucas, as ciclo faixas ficam desativadas durante a semana e, por isso,  para usar a bicicleta no dia a dia é como se o ciclista estivesse em um jogo de vídeo game, se livrando a todo instante dos obstáculos e dos automóveis e ônibus. E, se o ciclista sobreviver às pedaladas no trânsito, quando chegar ao trabalho ou colégio, por exemplo, precisará de um banho. E, nem todos os locais têm banheiro com chuveiro à disposição de funcionários, alunos ou professores. E, trabalhar molhado de suor não é uma boa opção. Mas, pensando bem,  andar de ônibus é diferente, em relação ao desconforto? Também nos ônibus, lotados e quentes, como é que alguém consegue não ficar ensopado de suor?

 
 E já que estamos falando em ônibus, pois é, está aí uma opção de transporte que, se fosse de qualidade, seria a solução para diminuir a quantidade de carros nas ruas. Nos países frios, todos ônibus têm aquecimento. Por que então, nos países quentes, eles não são, por lei, obrigados a ter ar-condicionado? Uma suposta resposta martela na minha cabeça, mas preferiria que não fosse a certa. Nos países da Europa ou no Canadá, por exemplo, todo mundo anda de ônibus e de metrô, tanto o executivo, o político, o professor, quanto o aluno ou a pessoa que tenha um trabalho mais simples. Pessoas que às vezes até têm carro, mas, como o transporte público oferece serviços de qualidade, preferem deixar o carro em casa. No Brasil, não é bem assim. Quem tem carro dificilmente anda de ônibus. Talvez, por isso, as empresas não vejam necessidade de dar mais conforto aos seus usuários.

Fervendo ou climatizado, os ônibus estão sempre cheios. Então pra que melhorar a qualidade se, mesmo que o serviço piore os clientes comparecerão em massa? Porque essa é a lógica do capitalismo: o lucro em primeiro lugar. O bem estar, a qualidade de vida da população? Isso está fora de debate e das decisões.  
 
Não seria mais lógico climatizar e aumentar o número de ônibus e de linhas, interligar toda a cidade e, assim, diminuir o número de automóveis particulares, aliviando a circulação? Seria, claro. Mas isso exige investimento e, como falamos acima, investir pra ganhar a mesma coisa não faz parte da lógica capitalista. Ao contrário disso o que tem acontecido é a retirada de circulação de algumas linhas como a CDU SHOPPING que fazia um percurso que privilegiava muita gente, sobretudo alunos, professores e funcionários da UFPE. A linha foi extinta e não foi substituída por nenhuma similar. Quem quiser vir da Federal para Boa Viagem ou pega dois ônibus, ambos superlotados ou, para pegar um só, tem que vir pela Caxangá. Ou seja, anteriormente poderia se chegar da UFPE para Boa viagem em vinte minutos, dependendo do trânsito. Hoje, não se gasta menos de uma hora, com bem mais aperto e bem mais trânsito. Não preciso comentar sobre o trânsito caótico da Caxangá, com uma só pista para automóveis.

A empresa que retirou a linha deve estar satisfeita, eu imagino. Mas, os usuários não. Mas quem se importa com os usuários?  Essa é a grande questão da prestação de serviços de uma maneira geral, sobretudo os públicos em que as pessoas não têm outra alternativa para usar. O alvo final, o usuário não é levado em consideração.

Foram muitas as discussões, os debates, as audiências sobre a mobilidade no Recife. Muitas sugestões, muitas ideias, várias alternativas. Alguma coisa foi posta em prática? A mobilidade tem melhorado? As pessoas estão mais satisfeitas quando se locomovem pela cidade? A quantidade de linhas de ônibus existente atende à demanda da população? E a quantidade de ônibus, é suficiente?

A quem interessar possa, a quem tem o poder de interferir nessa história toda, já não está na hora de pensar o Recife como uma cidade feita por pessoas e não por cifras e números?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

INDIGNAÇÃO, AMNÉSIA E IMPEACHMENT

por Rejane Menezes

Tenho acompanhado pela mídia social que as “pessoas indignadas com a corrupção” estão convocando um evento para, mais uma vez, pedir o impeachment de Dilma.
Soube desse “evento” através de convite de uma pessoa “indignada” que, na verdade, me indignou ao enviar o convite. Faço questão de afirmar que sou petista, desde 1989 e, um convite desses, me ofende. Não consigo imaginar que alguém possa supor que eu participaria de algo antidemocrático assim. Eu respeito a vontade dos eleitores. Posso não concordar, como já aconteceu várias vezes, mas respeito.

Dilma foi reeleita em uma eleição lícita, que ocorreu dentro dos parâmetros legais da Constituição Brasileira, soberana e que deve ser respeitada por todos os brasileiros.
Essa história de ficar querendo o impeachment de Dilma parece coisa de turminha de escola que perde o jogo e tem que entregar a quadra e fica de birra, sem aceitar a derrota. Perdeu, pronto. Prepare-se para a próxima eleição. Porque essa acabou em outubro de 2014.

Sob a bandeira de luta contra a corrupção, as “pessoas indignadas” vão de novo às ruas pedir que o mandato de Dilma seja cassado. Como se fazia à época ditadura com políticos que eram contra o governo. Pensam que são os caras pintadas da época de Collor.

 Só pra refrescar a memória das "pessoas indignadas": vocês descobriram a corrupção agora? Sério? A gente descobriu faz tempo. Mas só o governo do PT permitiu e incentivou as investigações.

Querem acabar com a corrupção? De verdade? Comecem então fazendo uma auditoria em sua vida.  Vejam, com sinceridade, se vocês respeitam os direitos das pessoas que trabalham pra vocês, seja em casa ou em suas empresas. Vocês pagam todos os  direitos? Dão folgas semanais para seus empregados domésticos? Pagam hora extra se extrapolar as horas legais  semanais?

Ou é como aquela eleitora de Aécio, que odeia Dilma e é dona de um negócio, tem vários funcionários, mas não assina a carteira de nenhum, não paga férias, só paga o baixo salário depois do dia 10 de cada mês, o décimo terceiro, por muito favor, paga em fevereiro e exige o máximo que pode?

O imposto de Renda está chegando. Já comprou recibo ou prestou serviço sem dar recibo para não pagar imposto? Já colocou dependentes imaginários para diminuir o que deve ao fisco? Tem uma loja, mas não dá nota fiscal?

Já pagou propina pra não levar multa? Já usou seu cargo, presentes  ou dinheiro para obter benefícios ou privilégios?

Corrupção não é apenas desviar grandes somas de dinheiro público não. É usar o papel, a impressora, a caneta, a máquina de Xerox, os grampos ou os clips, comprados com o dinheiro público para ser usado no trabalho, para imprimir, grampear, tirar Xerox de coisas pessoais.


Tem também o caso de pessoas que têm empresas que administram condomínios e que, mesmo recolhendo, regularmente, as taxas mensais, não pagam, por exemplo, INSS ou FGTS dos funcionários, deixando a dívida para os condôminos pagarem no dia que descobrem que foram lesados.

É fácil gritar que é contra a corrupção, se indignar com ela, fazer grupos nas mídias sociais e até ir às ruas carregando bandeiras de indignação.

Difícil é confrontar-se consigo mesmo e fazer essa auditoria, buscando uma ficha limpa pessoal que, muitas vezes, está longe de existir.

Por isso a minha sugestão é: vamos fazendo uma autoanálise, revisando nosso comportamento diante de algumas dessas situações que falei acima. E, ao final da análise, mesmo que pedir o impeachment seja algo totalmente sem propósito, que atire a primeira pedra do impeachment aquele que nunca  corrompeu ou foi corrompido.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA


por Rejane Menezes

 Abomino qualquer tipo de violência, em todas as suas manifestações. O atentado ao jornal francês foi uma violência desmedida e totalmente condenável. Mas acho também que as charges que o jornal publicou são também uma forma de violência, uma vez que demonstram uma total falta de respeito com o islamismo e o Cristianismo. Tive a oportunidade de ver algumas charges e fiquei chocada com a falta de respeito e o mau gosto das charges. É claro que as pessoas não deveriam ter pago com a vida por isso. De jeito nenhum. Mas acho que a liberdade de expressão deveria ter um limite quanto ao respeito aos valores e às crenças dos outros.
 Respeito profundamente quem é ateu ou agnóstico. Todos têm o direito de acreditar ou não em Deus, de ter ou não uma religião. E, da mesma forma que, tenho certeza, os ateus e agnósticos querem ser respeitados em suas convicções, deveriam respeitar as dos outros.
Uma coisa é publicar matérias ou teorias sobre a não existência de Deus ou do mal que achem que a religião causa às pessoas. Outra coisa é publicar charges obscenas com Maomé, Deus, Jesus Cristo ou o Espírito Santo.  Da mesma forma que seria condenável publicarem charges obscenas com políticos ou celebridades de uma maneira geral. Um jornal que publica coisas para degradar pessoas ou religiões não deveria nem ser chamado de jornal. É um tipo de publicação que envergonha a classe. Não acho que podemos chamar de jornalismos esse tipo de coisa.
Dizer que a culpa é das vítimas por terem insultado os mulçumanos seria o mesmo que dizer que as mulheres são culpadas por serem estupradas por usarem shorts ou saias curtas. Não se trata disso. Trata-se de exigirmos uma imprensa mais séria, mais comprometida com os valores, que tenha mais respeito pelas pessoas, suas crenças, suas opções de vida e, sobretudo, com a verdade.
No Brasil temos vários exemplos de publicações, em papel ou virtual, que não estão comprometidos com a verdade ou com o respeito. E, que com suas publicações, geraram cenas de violência, como, por exemplo, na última campanha eleitoral.
A falta de respeito, como violência que é, gera mais violência. Isso não justifica o ataque, é claro. Mas mostra duas coisas: o baixo nível da imprensa em termos mundiais e a fragilidade em que se encontra a paz.
Com certeza o jornal pagou um preço muito alto por sua falta de respeito e deboche. Quiçá, pelo menos, tenham aprendido a lição e não façam dessa tragédia uma bandeira para continuarem a publicar suas arbitrariedades.
Na França a Lei de Imprensa data de 1891 e existe uma agência reguladora independente. Entre outras atribuições o órgão também é responsável por monitorar o cumprimento das obrigações por parte da mídia, como a função educativa. O descumprimento ocasiona a aplicação de multas. Não acho que as publicações do jornal Charlie Hebdo podem se enquadrar como função educativa e por que publicavam livremente coisas do tipo.
A Charlie Hebdo foi fundada em 1970, quando substituiu 'Hara Kiri', semanário que reivindicava seu tom 'estúpido e malvado', fundado por Cavanna - falecido no ano passado - e Georges Bernier.  Neste ano, misturando o drama de uma discoteca no qual 146 pessoas morreram com o falecimento de Charles De Gaulle, o jornal intitulou 'Baile trágico em Colombey (a localidade onde o general morreu): um morto'. O governo proibiu imediatamente a difusão da Hara Kiri.
A redação optou, então, por uma nova fórmula editorial que combinava quadrinhos com posições parecidas com as da Hara Kiri, mas sob um novo título, Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, o Charlie dos Peanuts, as famosas tirinhas americanas de Charles Schulz.  Não acho que o autor de uma turminha tão legal deveria encarar isso como uma homenagem.
Ao mexer com uma figura pública como Charles De Gaulle, a publicação foi proibida.
A redação optou, então, por uma nova fórmula editorial que combinava quadrinhos com posições parecidas com as da Hara Kiri, mas sob um novo título, Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, o Charlie dos Peanuts, as famosas tirinhas americanas de Charles Schulz.
Aprendi na faculdade que a imprensa tem três funções: informar, educar e divertir.
Como jornalistas tenho andado muito envergonhada ultimamente, em relação à uma grande parcela da mídia brasileira quando incita à violência, denigre a imagem dos outros ou publica mentiras. Quando procuro um mínimo de programas educativos e não encontro. Quando tento me divertir constato que as formas de diversão estão caindo cada vez mais de nível e se tornando bizarras.
E, como jornalista e cidadã, espero que o Marco Regulatório da Imprensa seja aprovado e que jornalistas e empresas sejam responsabilizados pelo que publicam. Quem sabe, assim, não melhoramos o nível de nossa mídia?

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SERÁ QUE ERA VERDADE?


por Rejane Menezes 

Quando eu era pequena ouvia muito uma história sobre os perigos e a força da mentira. Contava a história que, em uma pequena cidade do interior, nada acontecia de novo, até a inauguração de um cinema. Foi uma alvoroço só. Todo mundo mandando fazer roupa nova para a grande inauguração. E, como era de se esperar, o cinema superlotou logo e muita gente ficou de fora. O barbeiro, devido ao grande número de fregueses naquele dia, quando chegou à porta do cinema, não lhe deixaram mais entrar. Homem muito conversador e contador de histórias e divulgador das novidades, não se conformou em ficar de fora de um tão grande acontecimento em sua cidade.

Matutou um pouco sobre o que faria quando, de repente, teve uma ideia. Chegou junto do constrangido porteiro que impediu a sua entrada e comentou: o amigo viu a baleia que colocaram no tanque da praça?

Ao que, abismado, respondeu o rapaz que não tinha visto. Talvez tivesse passado por lá muito cedo. Depois, animado, pediu detalhes. O barbeiro descreveu tão entusiasticamente a baleia da praça que chamou a atenção dos dois lanterninhas e da moça da bilheteria.

Logo o zum zum zum foi entrando pela sala de cinema e as pessoas que se amontoavam na sala de projeção foram ficando curiosas e saindo para perguntar o que estava acontecendo. Ao saberem da baleia da praça, iam correndo até lá para ver de perto a novidade. E a notícia foi se espalhando pela sala.

O barbeiro, atingido o seu intento, se esquivou, discretamente e foi procurar um lugar para se sentar e apreciar o filme.

Mas as pessoas não paravam de se levantar e ir para fora, não retornando mais aos seu lugares. Embevecido com a maravilha que era o filme, o barbeiro se envolveu de tal forma que, quando se deu conta, a tela ficou escura, as luzes acenderam e não havia mais ninguém na sala além dele.

Indignado levantou correndo e esbarrou no funcionário que operava o projetor de filmes e perguntou o que aconteceu. Por que o filme foi interrompido? Não vai voltar a exibir o filme?

O funcionário respondeu que não teria mais filme por aquele dia. A inauguração do cinema tinha sido suspensa pelo dono, por falta de expectadores. E apressado ainda gritou para um boquiaberto babeiro: estou indo ver a baleia e seus filhote, que estão no tanque da praça. Todos já foram. Você não vem?

O barbeiro coçou a cabeça, franziu a testa e ainda mais intrigado se perguntou: rapaz, será que havia mesmo uma baleia no tanque da praça e eu não vi? E com um filhote? E, sem pensar duas vezes, correu atrás da multidão para não deixar de ver a baleia.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

TEM QUE SER AGORA?


por Rejane Menezes

Esta semana estávamos conversando sobre a inovação do WhatsApp que, a partir da nova atualização, as pessoas vão saber se suas mensagens já foram ou não visualizadas. Claro que isso gerou uma polêmica generalizada sobre ser um absurdo, invasão de privacidade e outros senões.
E, quando disse que isso não me afeta, estava sendo sincera. Porque realmente não me incomoda o fato da pessoa ter lido e não ter respondido e, muito menos o contrário, a pessoa ver que li e não respondi. Porque, na verdade, apesar de ser altamente ligada às inovações da tecnologia, ser uma admiradora incondicional do progresso dos equipamentos e ferramentas que cada vez mais nos conectam ao mundo todo, não acho que o fato de ter lido uma mensagem que não encerre nenhuma urgência, me obrigue a parar tudo para respondê-la.

E daí se a pessoa viu que eu já li? Minha gente houve um tempo em que nem telefone existia e as pessoas sobreviveram à espera por respostas que demoravam meses.
Com o advento do telefone, a comunicação ficou mais fácil, é verdade. Mas antes de telefonemas interestaduais e internacionais, o telegrama era a forma mais rápida de comunicação. E todo mundo sobreviveu a isso.
Moramos em Natal, por três anos e, por opção de sossego, não tínhamos telefone em casa. Para emergências, a família tinha o número da vizinha.
Hoje, se ligamos para alguém e celular não atende, já ficamos aflitos ou com raiva. Se enviamos um WhatsApp e a pessoa não responde, é falta de consideração. Se marcamos uma pessoa no Face e ela não curte ou comenta é descaso. Se enviamos um e-mail e ficamos sem resposta, é desatenção. E, se algum amigo não prefere os aparelhos de celular comuns e não tem WhatsApp, é um alienado.
 

De repente é como se a comunicação virtual nos controlasse e ditasse as regras do bom comportamento. Quando estou dirigindo, não atendo o celular de jeito nenhum. Nem com fone de ouvido ou viva voz. Celular distrai e compromete a segurança. Já fui repreendida por chefes e colegas de trabalho. Não me importo. Privilegio a segurança. Ponto.
Minha gente não temos que obedecer a essas regras que levam a fazer loucuras, como digitar mensagem dirigindo, porque alguém quer uma resposta imediata. Já houve acidentes graves por isso.
O mundo não vai acabar se  desligarmos o celular por duas horas enquanto está no cinema.
Como já disse sou uma grande entusiasta da tecnologia e procuro aprender e adotar tudo que facilite a minha vida. Mas quero a tecnologia ao meu serviço, ao meu dispor e não o contrário, pois seria uma servidão sem nenhum propósito.
 

Portanto meus amigos, se enviarem uma mensagem por MSM, WhatsApp, Menseger, o que for e constatarem que li e não respondi, não comecem a imaginar os motivos. Quando eu não responder logo só existem duas respostas: ou estou ocupada e não posso responder naquele momento ou não respondi porque não quis. Em qualquer dos casos não há nada que você possa fazer a não ser esperar.
Vamos tomar um chazinho de camomila, um suquinho de maracujá e nos manter calmos. Para que a pressa?
Respondamos nossas mensagens quando pudermos, no momento mais adequado e deixemos de neura. A única e segura maneira de manter sua privacidade é ficar fora das redes. É como aquele velho ditado: “Ajoelhou, tem que rezar”. Ou ainda: “Caiu na rede, é peixe”.
Então, se gosta participar das redes, configure sua segurança e KEEP CALM. Porque privacidade... O que é mesmo?

 


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?


por Rejane Menezes 

Pois é, essa história do juiz que se ofendeu quando descobriu que não era Deus, dirigindo com carteira vencida e carro sem emplacamento, me lembrou os nada saudosos anos de chumbo, quando “carteirar” era a coisa mais comum. A frase, esnobe e pretenciosa “sabe com quem está falando” era usada com frequência, para desviar o foco do da coisa errada que estava fazendo e, daí, intimidar quem pegou o flagra.

Como os militares estavam infiltrados em todos os lugares, sempre tinha um para tirar o filho, o irmão, o amigo, o vizinho, do sufoco. Daí, ou o próprio miliar usava sua carteira para se safar ou livrar alguém ou então o alguém recorria a tal frase para mostrar que ou era alguma autoridade ou era próximo de quem era.

A agente em questão estava cumprindo o seu dever ao autuar uma pessoa que descumpria a lei. E, estava respeitando o artigo 5º da Constituição Brasileira que diz que “todos são iguais perante a lei”. E, por cumprir o seu dever vai ter que pagar R$ 5.000,00 ao juiz que estava descumprindo a lei de trânsito. Mas, enfim, corporativismo é o que mais vemos neste País, em detrimento do que é certo.

Bem, voltando aos anos de chumbo, lembrei de uma história que aconteceu comigo e minha irmã. Nós estávamos voltando de um enterro. Eu, ainda um tanto abalada, cometi um atropelamento. Aliás, o primeiro e único atropelamento em toda a minha vida.
SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?
 
Atropelei um balde. Isso mesmo: um balde. Como não sabia o que eu havia atropelado, parei imediatamente o carro e ia abrindo a porta para ver do que se tratava quando surgiu, ao meu lado, um soldado, balançando os braços e gritando, o que só depois consegui entender: “você destruiu uma propriedade do exército brasileiro”.  A princípio me assustei, achando que havia atropelado um companheiro dele. Só quando vi o balde, meio amassado, nas mãos deles, e ele apontando e gritando, foi que me dei conta de quem ou o quê eu havia atropelado.

Assustada com a fúria do rapaz, fechei a porta do carro e tentei ir embora. Afinal, com toda certeza, o alvo do meu atropelamento não ia precisar de socorro. E, imagino que o Detran não iria se deslocar para fazer a ocorrência, dada a identidade da vítima. Mas ele ficou grudado à janela, gritando que eu ia ter que pagar e outras coisas que já não me lembro.

Olhando ao redor, vendo esponja, sabão etc, entendi que o soldado estava lavando um carro. E, o tal do balde devia estar afastado do carro e, dada a sua pouca estatura, não me foi possível evitar o "pior".

 
Era um daqueles baldes de latão que se usava muito. Estava amassado, mas ainda servia. Quando vi que ela não ia largar a janela do carro e que não parava de gritar, eu respirei fundo, olhei bem nos olhos dele e “carteirei”. Pedi para ele fazer silêncio, bem abusada. Ele, surpreso, calou a boca. Então peguei um papel e uma caneta e solicitei o nome dele, a patente  e o local onde estava lotado. Ainda surpreso ele perguntou pra que. E eu falei, na maior tranquilidade, que era para fazer queixa ao coronel fulano de tal, de tal quartel, que, por acaso era o meu pai. Falei que meu pai gostaria muito de saber como eu havia sido tratada  por um provável subalterno dele.

E aí o feitiço virou contra o feiticeiro. Ele ficou pálido, começou a gaguejar, pediu desculpas, disse que não tinha sido nada, que o balde ainda servia, que eu podia ir embora, que estava tudo bem. Confesso que cheguei a ficar com um pouco de pena dele. Diante do pedido de desculpas, falei que ia deixar pra lá. Mas que ele tomasse cuidado. Da próxima vez meu pai iria saber. E não iria ficar feliz.

Liguei o carro e saí dali mais que depressa, antes que o nervosinho descobrisse que o tal coronel não existia. Ainda bem que naquela época não tinha celular.

Outro abuso de poder, frequente, na verdade, semanal, acontecia em uma rua na lateral de um quartel da polícia. Toda sexta-feira, a partir das sete da manhã, havia uma formação de oficiais na  frente de um edifício, no final da rua. Tinha também uma banda, que tocava por lá, não lembro se fazia parte da formação ou se era ensaio. E isso durava pelo menos uma hora. Bem, se fosse apenas o incômodolho do baru, já seria um absurdo. Mas, o problema maior é que a rua é sem saída e a formação dos oficiais ficava na frente da entrada e saída da garagem. Ou seja, era como a música de Luiz Gonzaga: ”Quem está fora não entra, quem está dentro não sai”.

Então, os moradores do prédio tinham que se organizar para sair de casa antes das sete, se quisessem chegar no horário em seus compromissos.  Isso durou muito e muito tempo. Qualquer compromisso que envolvesse sair ou entrar no prédio de carro, às sextas-feiras, tinha que ser antes das sete e depois das oito.
 
E ai de quem fosse fazer alguma reclamação sobre o assunto. Era capaz de sair de lá fichado. Ou, então, ser preso por desacato. Vá saber.

Para quem não lembra ou não viveu no famigerado tempo da ditadura, é bom saber que, o abuso de poder, a tal da “carteirada” era o seu lado mais ameno, porém, não menos invasivo e absurdo.