terça-feira, 25 de julho de 2017

A FELICIDADE NA VITRINE


Fulana estava em casa, assistindo à sua Smart Tv de cinquenta e tantas polegadas, talvez mais, ouvindo o altíssimo som que saia do seu home theatre, tomando o seu delicioso vinho de uma safra e uva especiais, beliscando um daqueles queijos com crosta azul ou verde.

Ao seu lado, o companheiro, envolvido com  seu iphone 7 ou algum mais novo, não prestava atenção, nem ao que estava passando na enorme tela de alta resolução e muito menos a ela.

Fulana se levanta e vai até a varanda de sua cobertura a beira-mar de alguma cidade litorânea brasileira, capital, quase certeza, olha as ondas do mar indo e vindo, vê a paleta de cores formadas pelos guarda-sóis fincados na areia quente, os pontos que se mexem para lá um lado e outro, para dentro e para fora do mar, faz uma careta de abuso, só de imaginar que todos aqueles pontos são homens, mulheres e crianças torrando naquele sol de quase meio-dia, se besuntando de protetores solar baratos, grudando areia no corpo como se fosse um camarão empanado, se molhando naquela água que vai e vem, sabe-se lá o que levando e o que trazendo de volta à areia.

Fulana tomou mais um gole de seu delicioso e gelado vinho, sentou em uma das espreguiçadeiras caríssimas que comprou em uma sofisticada loja de decoração e fez uma careta de reprovação ao imaginar as cadeiras de alumínio e plástico em que as pessoas se esticavam lá na praia, tomando caldinhos cuja preparação ela se negava a pensar.

Fulana sorriu e pensou, quase chegando a sentir pena daquelas pessoas, apinhadas naquela areia quente, provavelmente cheia de restos de comida e descartáveis, o quanto ela era feliz, em seu maravilhoso tríplex de cerca de 800 metros quadrados, com sua piscina privativa, suas cadeiras para banho de sol importadas, um bar repleto de bebidas para todos os gostos sofisticados, som da melhor qualidade de reprodução, petiscos variados e deliciosos, onde os camarões empanados eram de verdade e filés de lagosta nunca faltavam.

Olhou de volta para o sofá da sala de Tv, viu o seu companheiro rindo e respondendo a alguma mensagem, continuando alheio e ignorando que ela não estava mais ali do lado. Era domingo, a praia estava cheia de gente que se apertava, se esbarrava, corria, comia, bebia, jogava, nadava e... se divertia.
Era domingo e a sua maravilhosa piscina, com suas confortáveis cadeiras, bebidas, petiscos e som puro, estava vazia. Completamente vazia. Tudo estava limpo, guardado e arrumado. Porque não tinha ninguém para estar ali.

Fulana encheu mais outra taça de vinho, que vinha da segunda ou talvez terceira garrafa que bebia sozinha, fechou os olhos e tentou se imaginar lá na praia, no meio daquela multidão que ria e curtia o domingo, com a família e amigos. Sentiu pavor, agonia, repulsa, raiva, angústia, inveja. Inveja? Inveja de estar empapada de suor, empanada de areia, disputando um lugar para sentar?

Não, disso não. Arrepiava-se só em imaginar um grão de areia grudado no suor de seu corpo. Sentiu inveja dos sorrisos sinceros, das gargalhadas que vem da alma, da alegria que contagia e se espalha pela areia, em meio a toda aquela gente. Olhou novamente o companheiro que agora tomava uma cerveja importada e, ainda sem perceber que ela não estava mais ali, mudou de canal e começou a assistir a uma partida de futebol. Como Fulana odeia futebol! Mas parece que seu companheiro estava ignorando totalmente isso, inclusive aumentando o volume daquelas potentes caixas de som, estrategicamente distribuídas, inclusive ao longo da enorme varanda que circundava todo o andar onde estavam.

Fulana poderia pegar um dos controles remotos espalhados pela varanda, bem ali, em uma mesinha ao lado e desligar as caixas que estavam perto dela. Mas não o fez. Deixou que aquele som irritante se espalhasse pela varanda, sem conseguir tirar os olhos da praia lá embaixo.

Estava inquieta, angustiada. Mas não era apenas por causa da voz falsamente eufórica do narrador do jogo que entrava por seus ouvidos sem pedir licença. Esse som ela poderia desligar quando quisesse. O que a incomodava eram aquelas pessoas lá embaixo, na areia, irritantemente felizes. Essa imagem ela não podia desligar. Não dava para mudar de canal. Não tinha como deletar. Mesmo que se levantasse e fosse para outro cômodo, as pessoas ainda continuariam ali, se divertindo e aproveitando a folga do domingo.

E ela, para qualquer parte de seu imenso apartamento que fosse, continuaria sozinha, tendo como companhia apenas a sua taça de vinho. Olhou mais uma vez para as pessoas lá embaixo, pontinhos que se mexiam e ignoravam a sua existência. Pensou em como o seu companheiro parecia fazer de conta que ela nem existia.


Pegou o seu iphone 7 ou mais novo, o que fosse, tirou uma self com o mar e o céu se confundindo lá no horizonte, foi até a sala, acenou para o companheiro sorrindo, soltando um beijo. Ele olhou para ela distraído e, talvez, sem nem perceber, retribuiu o beijo e voltou à atenção para a o futebol. Então ela postou as fotos no Facebook e no instagram e comentou: “Mais um dia lindo para ser feliz com o meu amor”. #oamornaoelindo? #diaperfeito. E ficou olhando fixamente para a tela do iphone,  aguardando as curtidas e, com sorte, talvez até alguns comentários.

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