Cansadas de viverem sozinhas, de vez em quando as letras resolvem se misturar na cabeça de algumas pessoas e, juntas, formam palavras, que formam textos que, dependendo do momento e da imaginação de cada um, tornam-se contos, ensaios, críticas ou até mesmo incríveis historinhas infantis.
Daí, surgem misturas fantásticas para saciar a nossa fome de beleza e nos levar a um mundo encantado que só a nossa imaginação, unida à imaginação de quem escreve pode desvendar.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

PATRIOTISMO OU FUTRIOTISMO?

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


De repente o país se encheu de verde-amarelo. Nos carros, nas casas, nas lojas, o verde e o amarelo davam o tom. Algum desavisado até poderia achar que, finalmente, os brasileiros descobriram o encanto de seu país e resolveram viver o sentimento nativista tão em falta por essas paragens.
Mas não. Não é patriotismo, não é orgulho de das cores de nossa bandeira, do verde das nossas matas, o amarelo das nossas riquezas não têm muita importância a não ser... de quatro em quatro anos.
Quando começa a copa do mundo compram-se bandeira e camisas amarela e verde, fazem-se maquiagens, pintam-se as unhas, tudo pra mostrar por quem se torce. Como se fosse necessário demonstrar que está torcendo pelo Brasil. Não seria essa a única época em que a quase unanimidade nacional torce pelo mesmo time? É verdade que existem os estrangeiros e os “do contra”. Mas são minoria.
Vuvuzelas, apitos, gritos de alegria, cerveja, telões, família e amigos reunidos e o essencial: muita animação.
Passamos para as oitava e chegamos ás quartas cheios de confiança. Já combinávamos onde veríamos o próximo jogo, antes mesmo do Brasil e Holanda começarem a jogar.
E o Brasil domina o primeiro tempo, faz o primeiro gol da partida e vai mandando ver.
Mas, no segundo tempo, leva um gol e se desarma. Como sempre. Em lugar de reagir como a Holanda e partir do gol de desempate, leva mais um.
Em vez de correr pro gol, corre pra faltas e perde um jogador.
Que decepção em seleção?
Mas, nem sempre se ganha não é mesmo? 31 seleções têm que perder para apenas uma ser a campeã. E, desta vez, a seleção brasileira ficou do lado de lá.
Mas não temos mais que encarar a perda de uma copa do mundo como a maior das tragédias. Isso acontecia antigamente, quando a ditadura militar nos roubou o orgulho de sermos brasileiros. Quando sepultaram, junto com os perseguidos, torturados e mortos, a nossa dignidade e o nosso direito de lutar pela liberdade de expressão.
Hoje, vivemos tempos diferentes. O futebol não é a única coisa da qual podemos nos orgulhar.
Nós vivemos em um país que cresce, que se desenvolve sem deixar de fora a maioria da população, como acontecia em outros tempos.
A inclusão social, ainda que não seja a ideal, já é realidade. Cresceu a fatia da população brasileira que tem acesso a bens de consumo que há nove, dez anos atrás, jamais sequer sonharia.
Há mais comida na mesa dos brasileiros e também eletrodomésticos.
Com certeza têm algumas pessoas hoje que estão felizes com a derrota da seleção brasileira sob a alegação que o hexa seria usado pelo governo para ganhar as eleições.
Pelo amor de Deus! Vamos combinar que o governo não precisa de um título mundial de futebol para ganhar eleição. São muitos os títulos que realmente que vêm sendo acumulados nos últimos anos.
Não guardem suas bandeiras. Deixem seus carros, suas casas, suas ruas, enfeitados de verde e amarelo para colorir a campanha eleitoral que está começando daqui a alguns dias.
Vamos ter nestas eleições o mesmo entusiasmo que tivemos durante a Copa do Mundo. Mas desta vez, não vamos ficar na torcida, esperando um jogador lá na África do Sul fazer um gol.
Desta vez, vamos nós mesmo ser os protagonistas, fazendo do voto o gol que fará a todos nós vencedores.
Misturemos as cores de nosso partido às cores de nossa bandeira. Em outubro, o futuro de nosso país e de nosso estado vai estar outra vez em jogo. O resultado está em nossas mãos.
Dizem por aí que em time que está ganhando não se mexe.
Eu concordo com esse ditado popular e sua opinião, qual é?

sábado, 26 de junho de 2010

“TODO MUNDO 'PENSANDO' EM DEIXAR UM PLANETA MELHOR PARA NOSSOS FILHOS... QUANDO É QUE 'PENSARÃO' EM DEIXAR FILHOS MELHORES PARA O NOSSO PLANETA?"

“TODO MUNDO 'PENSANDO' EM DEIXAR UM PLANETA MELHOR PARA NOSSOS FILHOS... QUANDO É QUE 'PENSARÃO' EM DEIXAR FILHOS MELHORES PARA O NOSSO PLANETA?"
Rejane Menezes

Essa pergunta foi vencedora em um congresso sobre vida sustentável. Desde que minha filha, adolescente, me encaminhou um e-mail com um texto falando sobre a “involução’ da educação nos últimos anos, iniciado com a esta pergunta, que eu tenho pensando neste assunto com muita preocupação.
A grande preocupação mundial é com “que planeta nós deixaremos para os nossos filhos". É claro que esta é uma preocupação procedente. Imprescindível se queremos deixar alguma vida no planeta. Mas e as pessoas que vão habitar o planeta no futuro? Estamos preocupados com isso?
Eu confesso que sempre estive. Tenho três filhas, duas adultas e uma adolescente e a educação em sua totalidade sempre foi a grande preocupação em nossa casa.
Educar é função dos pais. Desde a educação doméstica, que prepara a criança para o convívio social até a educação formal, escolar, pois a qualidade desta depende da escolha da escola onde colocarão os filhos.
Sempre, eu e meu marido, demos muita importância à educação formal. Elas sempre estudaram em escolas onde fossem formados cidadãos e não pelotões de vestibulandos. Sempre tivemos muito claro que, como pais, nossa obrigação era formar pessoas inteiras e não seres obcecados com vestibular. Formar pessoas preparadas para viver o futuro, com todos os seus desafios e dificuldades. E, essas dificuldades não podem ser amenizadas ou superadas apenas se aprendendo a marcar o “x” no quadradinho certo.
Mas, se observamos atentamente as crianças, adolescentes e jovens ao nosso redor, o que vemos? Vemos que as crianças estão cada vez mais mimadas, cheias de vontades, histéricas, egoístas e autoritárias. Como os pais trabalham cada vez mais, têm cada vez menos tempo para os filhos e, procuram compensar isso ou comprando tudo o que eles querem ou permitindo que façam tudo o que querem. Parece que “limite’ é uma palavra que sumiu do dicionário familiar.
O choro, arma poderosa das crianças, continua cada vez mais poderoso. E parece que hoje, elas conseguem gritar e chorar mais alto que antigamente. Prestem atenção quando estiverem em shoppings, caminhando no calçadão ou mesmo em baixo nos prédio. É sempre uma profusão de gritos e choros que, confesso, acho enlouquecedor.
Incomoda o fato de perceber que os adultos estão se deixando dominar pelas crianças. Crianças que são sua responsabilidade de educar, de formar, de ajudar a serem adultos humanizados, fraternos e solidários.
Mas o que vemos são adultos omissos e crianças fazendo o querem sem, contudo, ter ainda o discernimento necessário para conduzir sua vida.
Há alguns, passando um São João em Gravatá, assistimos a uma cena deprimente e revoltante, ao mesmo tempo. Um adolescente, de dezesseis ou dezessete anos tomou a chave do motorista e foi levar a namorada no condomínio onde estava hospedada. Enquanto entrava no condomínio, este adolescente, que dirigia uma Hi Lux resolveu dar uma cheiradinha em uma “loló’. Não sei se desmaiou, se ficou doidão, só sei que era para ter virado a esquerda e não virou e entrou com tudo no terraço da casa que ficava no final da rua, derrubando as pilastras e o telhado ficando apoiado na capota do carro. Por sorte, por pura sorte mesmo, ninguém se feriu. Naquele terraço dormiriam vários jovens. Se fosse um pouco mais tarde, poderia ser uma imensa tragédia. Corremos todos para prestar ajuda, mas, graças a Deus, nem o irresponsável à direção se machucou. No dia seguinte veio algum responsável assumir os prejuízos causados. E, comentou que o motorista tinha sido despedido, pois a culpa havia sido dele por ter deixado o rapaz pegar as chaves. E o rapaz que dirigia? Deve ter sido premiado com um carro poderoso ao fazer 18 anos. Ou antes, quem sabe?
Paremos um pouco e realmente tomemos a sério a pergunta que inicia este artigo: que filhos vamos deixar para o planeta? Serão pessoas conscientes de sua responsabilidade na preservação do meio ambiente? Serão cidadãos que não jogam lixo pela janela, que não poluem os rios ou ar? Ou que respeitam os outros seres humanos não jogando fumaça na cara de quem fuma ou ouvindo o som do carro ou do quarto em um volume que não incomode os outros?
Estamos preparando pessoas para viverem em comunidade? Nossos filhos estacionam o carro ocupando apenas uma vaga? Respeitam as filas? Desligam o celular quando estão no cinema?
Recebemos muitas críticas quando minhas filhas eram pequenas por causa do rigor com as quais as criamos. Mas hoje, vejo feliz o resultado das sementinhas que plantamos: elas respeitam o meio ambiente e os seres vivos que nele habitam, dos animais às pessoas.
Não nos arrependemos de nenhum não que demos ás nossas filhas. Ao contrário, cada um pode ter doido naquele momento, mas hoje, o comportamento delas só demonstra o quanto foi necessário. Amar os filhos é educá-los, prepara-los para viver o futuro com responsabilidade, dignidade e, sobretudo, como cidadãos conscientes de seu papel na história que está sendo escrita.
Não se iludam, não adianta fazer parte de ONGs ambientalistas, ser engajado em partidos políticos, movimento sociais ou religiosos, lutar com todas as forças por um mundo melhor para os nossos filhos se não criarmos filhos melhores para o nosso mundo. Se não despertamos a consciência para esse detalhe, toda, toda a nossa luta terá sido em vão.
Publicado no jornal Linha de Frente -edição junho /julho-2010.

domingo, 9 de maio de 2010

SER MÃE É ...

Diz o antigo dito popular que ser mãe é padecer no paraíso. Ser MÃE é muito mais que isso. É dar a vida a uma nova vida e cuidar para que aquele pequeno ser cresça saudável e feliz. Não é fácil, sabemos, porque não existe nenhum seguro que possa ser feito que garanta a uma aflita mãe que o seu bebê será um adulto feliz.
Ser mãe é amar incondicionalmente. É amar sem distinção quantos filhos tenha. Seja dois, sejam dez. É proteger incansavelmente, doar-se sem medida e acolher sempre e a cada momento. Ser mãe é passar noites acordada por causa da febre ou abraçar forte por causa do medo do bicho-papão.
Ser mãe é cuidar com carinho, perdoar com alegria e compreender as decisões que não tomaria. Ser mãe é mostrar o caminho e olhar de longe, torcendo para que sigam no rumo certo.
Ser mãe é enfim, ver os filhos crescerem e partirem em busca de sua própria vida. É torcer por eles e pedir ao Pai que os protejam. É chorar de saudade na ausência, contar os segundos que faltam para o reencontro e quase morrer de tanta alegria ao retornarem.
Ser mãe é fazer tudo isso com os filhos que carregou na barriga, com os filhos que acolheu em seu coração, com os sobrinhos, os afilhados, os irmãos. Porque têm tias, irmãs e madrinhas que são verdadeiras mães.
Não, ser mãe não é padecer no PARÁISO. É sim, ser feliz no paraíso.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

HISTÓRIA DAS CANÇÕES - CHICO BUARQUE



Este é o titulo do recente livro de Wagner Homem que conta as histórias por trás da obra de Chico Buarque. A ideia partiu de um amigo do autor, Sérgio Nogueira, que acabou se afastando do projeto, mas nunca deixou de incentivar o parceiro nessa empreitada.
Wagner Homem conheceu Chico Buarque em 1989, quando colaborou como o livro Chico Buarque Letra e Música, editado pela Companhia da Letras.
Tempos depois, em 1998, sugeriu a Chico a produção de um site pessoal, contendo toda sua obra.
Vale registrar que o site oficial de Chico Buarque (www.chicobuarque.com.br) ganhou por três anos consecutivos o prêmio iBest, concurso de websites corporativos e pessoais, criado em 1995, para incentivar as iniciativas do mercado que acabava de nascer, e, hoje, tornou-se mania nacional.
Com prefácio de Toquinho o livro já está entre os dez mais vendidos de acordo com a revista Época.
Recebendo críticas elogiosas da imprensa em geral, o livro é um tributo ao nosso compositor soberano e um presente para todos nós que sabemos apreciar a genialidade de Chico Buarque.
O livro pode ser encontrado na Livraria Cultura.

Eu vi e ouvi Mercedes Sosa no lotado Teatro Guararapes, na libertária Olinda!

Texto escrito pela escritora Jussara Kouryh*, minha querida amiga e companheira na mistura de letras.



O palco estava desnudo. As cortinas pretas fechadas não nos permitiam, sequer, imaginar o que escondiam, que dirá prevê nuances do espetáculo.

A frente da opacidade dos panos apenas uma poltrona de palha
(era a impressão de longe),
Uma estante de partitura
Um microfone,
As caixas de retorno.
Nada além.

A platéia, por vezes atenta àquele negrume, por vezes atenta a si mesma na catação de seu assento, por vezes caçando amigos, amores, amantes, cujos encontros e reencontros para ali haviam sido marcados...

E o burburinho se fazia ouvir sem se transformar em balburdia.

Era uma quieta ansiedade. O gongo soou o primeiro toque. As pessoas começaram a ter pressa, pressa para os encontros. Os dois outros toques...
Os três últimos toques.
Silêncio.
Apenas o movimento dos panos pretos mostrando o que tanto escondiam: um piano e seu pianista, um violão e seu violonista, um baixo e seu baixista, uma bateria e seu baterista... ou seria inversa a ordem?
Um pianista e seu piano, um violonista e seu violão, um baixista e seu baixo, um baterista e sua bateria...
A ordem, neste caso, diz nada tal a sintonia entre um e outro a ponto de não sabermos onde começa um e finda o outro...
Eles, instrumentistas e instrumentos, são únicos, são a música!
As luzes os focaram sem produzir sombras. E eis que entra uma mulher alquebrada pelo tempo, em passos lentos e trôpegos, apoiada a um homem alto que, delicadamente, a conduziu à cadeira de palha.
E nós, como se tivéssemos ensaiado meses a fio, com um rigor técnico apresentado, talvez, nos jogos de Pequim, levantamo-nos a um só momento e aplaudimos, aplaudimos, aplaudimos ...
Ela parecia nos fitar um a um, como se quisesse guardar nossas caras. Talvez, não! Guardou no seu olhar, o brilho de nossos olhos.
Agradeceu. Disse que a havíamos emocionado.
Sentou.
Soltou a voz!
Conduziu-nos por uma viagem pela América Latina, lembrou dos nossos, das nossas lutas e, com o chão do teatro salpicado por luzes verdes, amarelas e azuis, nos reintroduziu no “coração de estudante” para re-significarmos nossas conquistas e reafirmarmos nossa disposição de lutar por um mundo decorações livres daquilo que subtrai nossa humanidade.
E sua força – da voz e dos ideais – suplantou a envergadura dos anos!
Eu vi e ouvi Mercedes Sosa no lotado teatro dos Guararapes, na libertária e histórica Olinda!

JUSSARA KOURYH - Autora de diversos livros, sendo o mais recente: "Josenildo Sinesio - Da Aridez da Terra ao Ventre da Cidade - Uma História de Fé e Compromisso".

sábado, 3 de outubro de 2009

ELE VINHA SEM MUITA CONVERSA ....

Ele compunha, tocava e cantava e falava de mar, de lua, de trem e de amores, perdidos, achados, amados enfim.

Seu olhar, claro como o dia, sorria tímido, como tímido era o sorriso que se esboçava em sua boca ávida por anunciar um novo dia chegando, querendo acreditar que ele iria raiar, só porque sua cantiga anunciou.

Foi assim que, lá pelos idos de 1966, assisti deslumbrada, no alto dos meus 11 anos, a um jovem meio sem jeito, encantar a todos que ouviam a banda passar.

 Olhos grudados na TV, tão em preto e branco quanto o retrato que o maestro soberano ajudaria a colecionar um pouco mais tarde, vi as imagens do Festival de Música Popular Brasileira invadir as casas e os corações dos brasileiros que torciam por suas músicas preferidas, aprendiam as letras e cantavam, todos juntos, como um coro gigantesco ecoando Brasil afora, pra ver a banda passar, tocando coisas de amor.

Pedro Pedreiro esperava o trem, enquanto ninguém chegava do mar. Mas e Cristina, será que ela volta? Talvez fosse no nó de marinheiro de Nicanor que Carolina pensasse, com seus olhos tristes e por isso, não visse o tempo passar por sua janela, que bem poderia estar ao lado de Januária, pra onde o sol apontava.

Um tempo que foi construído tijolo por tijolo em um desenho mágico, esperando o carnaval chegar, mas, ao contrário do velho que deixou a vida sem bagagem, aquele moço de olhos vivos escreve a sua história e a história de seu tempo, cantando a vida, sendo cada música ela própria, uma história.

Um tempo que foi passando e o moço acompanhando, de dentro do bonde da história, porque este, ele nunca perdeu.

Exilado, sabia que voltaria para o seu lugar, para ouvir de novo a Sabiá. De lá, pediu perdão por uma omissão que nunca teve, sempre presente aos mais importantes momentos da luta pela redemocratização do país, denunciando, com graça e poesia, as mazelas de um povo cerceado, amordaçado, que sofria com a tortura, com a miséria, com o atraso.

Perseguido pela censura, dava asas à imaginação e, de uma forma ou de outra, conseguia burlar a pouca “inteligência” reinante à época da ditadura militar.

Político, cronista, amante, trovador, malandro, assim foram divididas as suas canções em uma coleção de cinco CDs, lançados há alguns anos. Mas nem de longe, esta coleção, ou esta classificação, fez jus ao talento, à criatividade, à poesia deste grande artista.

Algumas músicas de Chico, são verdadeiras pérolas, de simetria, de musicalidade, de conteúdo. O fato de ser filho de um historiador, com certeza contribuiu para que em suas letras, encontremos um pouco da cultura do povo brasileiro.

Chico escreveu valsa, samba, baião, frevo, opereta, música popular brasileira da "melhor qualidade", como costuma dizer uma amiga minha. Cantou o amor em "língua de criança, cantou para as irmãs, homenageou a família, os compositores e cantores e cantoras brasileiros, compôs versos que podem ser cantados de frente para trás, dispostos livremente, de acordo com a preferência de quem for cantar. Homenageou o operário da Construção. Homenageou, ao mesmo tempo que denunciou como vivem os menores abandonados o adolescente levado ao crime, o emigrante nordestino e os moradores das ruas. Cantou ao amor eterno. E os sonhos? Alguém terá cantado com mais propriedade?

Declarou em versos e música o amor à sua mulher e à filha que ia chegar. Cantou as filhas e o neto.

Fez versões, traduziu escreveu peças musicais.

Misturando poesia e denúncia, amor e saudade, alegria e tristeza, Chico vem dando o seu recado, ao longo de todos esses anos de carreira. E olha que lá se vão quatro décadas. E teve dezenas de parceiros maravilhosos, maestros soberanos, poetinhas e muito mais.

Menestrel, trovador, romântico, contestador, subversivo, qualquer que seja o estilo, qualquer que seja o parceiro, qualquer que seja a fase, a obra de Chico é inigualável.

Mesmo que não lance discos com a freqüência, que faça um show por década, nada disso tem importância. Porque Chico não é um artista que precise ficar compondo freneticamente para não perder os fãs.

Chico não é para ser simplesmente ouvido ou cantado. É para ser apreciado e, por que não dizer, degustado?

As letras de Chico Buarque, são como um vinho de safra especial: têm que ser sorvidas com calma, saboreando cada palavra, deixando-se inebriar por elas, descobrindo o prazer que elas proporcionam ao ouvido e à alma... como o “sol que ensolarará a estrada dela, a lua alumiará o mar”, há que se deixar invadir.

Este é Chico: genial, talentoso, único e generoso, tão generoso que distribui com o mundo o seu talento.

Ah! E não é que eu já ia me esquecendo: Acorda amor, é o Julinho da Adelaide.
Mas isso, já uma outra história.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

“IDEOLOGIA: EU QUERO UMA PRA VIVER”. – PUBLICADO JC – 14/04/99

“Pertenço a uma espécie em extinção. A um tempo em que jovens abraçavam utopias e sonhavam em mudar o mundo. O discernimento brotava na idade certa, tanto que, ao final do segundo ciclo, uns optavam pelo curso científico, outros pelo clássico.”
Trecho inicial do artigo “Memórias de um dinossauro”, de frei Betto, publicado no jornal Estado de São Paulo, no dia 28/08/98..
Lendo este artigo, comecei a me sentir, eu mesma, parte integrante desta espécie em extinção.
Seria apenas mero romantismo, querer que a juventude de hoje tivesse a garra e a ousadia dos jovens das décadas de sessenta e setenta, quando muitos deram a própria vida por seus ideais ? Ou quando o sonho de consumo era de uma calça velha, azul e desbotada?
Não há mais repressão a combater, os pais hoje são na grande maioria liberais, o sexo já não é mais tabu ... não sobrou nada pelo que lutar ....
Não sobrou? E a injustiça social que assola o país? A fome, a falta de instrução, a ausência de um sistema de saúde decente, a falta de emprego, a falta de terras para os pequenos agricultores ... isso é problema de quem? Podemos até dizer que isso é problema do governo. Mas é problema nosso, cobrar do governo, uma solução para tudo isso.
Nas décadas de 60 e 70, lutava-se pela liberação sexual, pelo divórcio, pelo feminismo, pelo direito de pensar diferente do governo, pela democracia, pelo direito de voltar a eleger prefeitos, governadores, presidente.
As eleições aconteceram e o que vimos? O marasmo das campanhas e maior ainda, dos eleitores.
Ao contrário do que acontecia até há alguns anos atrás, em nenhum nível, houve entusiasmo por parte da população.
E os jovens, essa galera descontraída e alegre, onde anda, nesse final de milênio? Quando interrogados sobre eleições, responderam que não estavam nem aí. Até parece que estamos vivendo na “Terra do Nunca”, o mundo de Peter Pan, onde as crianças nunca crescem. Só que nessa terra real em que vivemos, as crianças crescem, se tornam adultas e vão assumir a condução deste mundo, que para elas, parece tão distante.
Hoje, os jovens se preocupam muito com os “trombadinhas”, porque eles estão lhes roubando os preciosos tênis de “grife”. Outra grande preocupação é a malhação, o filme que está passando, o novo CD que está rolando, o lugar da moda para freqüentar.
Antes, estar por fora era ser alienado, despolitizado. Hoje, estar por fora é não usar grifes, ser virgem, não ter provado nenhum barato químico, não freqüentar os lugares quentes, não “surfar” na Internet.
E onde está aquela juventude arrebatadora, cheia de garra e de determinação, engajada em grupos de jovens católicos, que mudou a história do país? Está criando seus filhos e não está conseguindo passar para eles, a importância de tudo aquilo pelo qual lutou e conseguiu construir.
Os jovens de 60 e 70, são os quarentões e cinqüentões de hoje, que ainda se emocionam quando ouvem “Apesar de você” ou “Pra não dizer que não falei de flores”, mas que não conseguem fazer seus filhos se sensibilizarem com um índio queimado num banco de rua em Brasília ,com a jovem mãe que tem seu filho a céu aberto, porque não há lugar nas maternidades públicas, com o pai de família desempregado, que é preso por roubar alguns pães ou com a mãe de rosto cortado pelo sol, que anda quilômetros com uma lata na cabeça, para pegar uma água barrenta e infectada, para saciar a sede de seus filhos.
Por enquanto, ainda não estamos precisando de Spielberg para ressuscitar os dinossauros, porque, apesar de poucos, ainda não estão extintos. Embora muitos, tal como a nossa pátria, estejam adormecidos em berço esplêndido.
O que aconteceria se, de repente, uma manada de dinossauros despertasse e saísse às ruas, em busca dos sonhos perdidos? Talvez conseguisse, pelo menos, alertar seus jovens rebentos, para o fato de que o futuro chega rápido e que, em breve, eles herdarão o mundo e pode ser que não tenham a menor idéia do que fazer com ele.
O que podemos fazer por nossos filhos, para que não cheguem à idade adulta , como “O Velho”, música de Chico Buarque: “me diga agora o que é que tem de novo pra deixar? Nada só a caminhada longa, pra nenhum lugar”. E o que podemos fazer por nós mesmos, para não esquecermos das páginas que escrevemos em nossos livros e para que as próximas, não fiquem em branco?
Precisamos reservar em nossas agendas, um tempinho para pensar sobre isso: Está faltando alguma coisa em nossas vidas. E está faltando ainda mais, na de nossos filhos.
Precisamos criar coragem de revirar o nosso baú de sentimentos e reinventar a nossa própria vida.
Precisamos reencontrar a nossa própria FÉ.
E que bom seria se, redescobrindo Cazuza, os nossos jovens cantassem bem do fundo da alma: “IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PRA VIVER” e, sem medo de se comprometer e sem medo de ser feliz, abrissem os olhos e o coração para a vida, e, agarrando-a com muita força, se sentissem orgulhosos em dizer: somos dinossauros e não estamos mais em extinção. REJANE MENEZES