Cansadas de viverem sozinhas, de vez em quando as letras resolvem se misturar na cabeça de algumas pessoas e, juntas, formam palavras, que formam textos que, dependendo do momento e da imaginação de cada um, tornam-se contos, ensaios, críticas ou até mesmo incríveis historinhas infantis.
Daí, surgem misturas fantásticas para saciar a nossa fome de beleza e nos levar a um mundo encantado que só a nossa imaginação, unida à imaginação de quem escreve pode desvendar.
Mostrando postagens com marcador ódio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ódio. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

LAVANDO A ALMA


O Recife amanheceu com suas ruas molhadas, como se as nuvens quisessem lavar a cidade, depois de uma eleição difícil e sofrida para os que votaram, realmente, de  acordo com a  sua opção política, seja de esquerda ou de direita e não movidos pelo ódio e pela alienação política.

As águas da chuva que começaram a cair ontem à noite pareciam querer limpar a cidade, da sujeira deixada pelo material de campanha espalhado em torno dos locais de votação e também as consciências dos que votaram em nome do ódio e não da cidade.

Em todo o país tivemos uma eleição movida por um ódio insano, cujo único objetivo era impedir que o Partido dos Trabalhadores elegesse seus candidatos. E não o que fosse melhor para a cidade.

Aqui no Recife não foi diferente. Como pode uma administração apática, insípida, que não tem nada de importante a apresentar, que não fez nada para melhorar a qualidade de vida da população, quase ter sido reeleita em primeiro turno?

Eram oito candidatos. Claro que a maioria não tinha real probabilidade de eleição. Na verdade, podemos dizer que três tinham. E, por isso mesmo, não se admite que a eleição quase tenha sido decidida no primeiro turno.

O ódio ao PT tem cegado as pessoas e as impedido de enxergar além de seu próprio umbigo.  Um ódio direcionado contra um Partido, camuflado de combate à corrupção, quando em praticamente todos os partidos existem denúncias, delações de parlamentares corruptos, mas que permanecem blindados pelo simples fato de que não foram eles que proporcionaram a oportunidade aos pobres de uma ascensão na escala social, que os fez chegar mais próximo de uma classe econômica abastada e egoísta, que não quer dividir com eles os espaços nos aviões, nos shoppings da vida ou nas salas de espera dos laboratórios e consultórios médicos.

Eleitores de Priscila Krause e de Daniel Coelho, ao ver que, nas pesquisas, João Paulo continuava em segundo lugar, mudaram seu voto para Geraldo Júlio para garantir que João Paulo não fosse eleito, não importando que, assim, estavam prejudicando seus próprios candidatos, praticando o chamado “VOTO ÚTIL”.

Votar a favor de um porque não se quer que outro se eleja é uma prova da despolitização gigantesca que se espalha pelo Brasil feito rastilho de pólvora. E, todos nós sabemos o que acontece quando o rastilho é consumido: uma inevitável explosão.

Se a atual administração estivesse sendo positiva, se a cidade do Recife houvesse melhorado, então a recondução do atual prefeito seria justificada. Mas, se apropriar de obras de governos anteriores e dizer que são suas, não torna isso verdade. Criar uma ciclo-faixa de lazer, aos domingos e feriados, não é melhorar a mobilidade na cidade. Embelezar a orla de Boa Viagem, construindo uma academia de Pilates em um dos jardins da avenida, não é melhorar a saúde dos recifenses. E inaugurar um parque não é ter como prioridade a preservação do meio ambiente.

Insegurança crescente, com a ocorrência de estupros que colocam as mulheres em uma situação ainda mais vulnerável e o aumento de assaltos, inclusive a ônibus, iluminação precária em muitas partes da cidade, trânsito caótico e ruas praticamente intransitáveis nos bairros, com estacionamentos e mão dupla que deveriam ser revistos, calçadas sem condições de uso por pessoas com dificuldade de locomoção, tudo isso sem falar nos problemas dos bairros mais afastados e menos favorecidos economicamente, são o relatório vivo de uma administração que não fez praticamente nada pelo povo da cidade, sobretudo pelos que mais precisam. E, mesmo assim, quase ganha no primeiro turno. Que justificativas encontramos para esse fenômeno?

Não conheço ninguém que esteja satisfeita com o atual prefeito. Porém, na hora de mudar isso através da legitimidade do voto, as pessoas preferem endossar uma administração incompetente a arriscar uma nova, como seria o caso de Daniel Coelho ou Priscila, desde que o PT não seja eleito. Quem perde? Os candidatos que não chegaram ao segundo turno? O PT que chegou por um fio? Ou a cidade do Recife que continua sob o risco da continuidade do descaso com a sua população? Ao quase levar o atual prefeito a uma vitória no primeiro turno, não foi dado um NÃO a Daniel, Priscila, Edilson ou João Paulo ou aos outros quatro candidatos. Foi dado um NÃO ao futuro do Recife.

O segundo turno não é fruto do acaso. É fruto da persistência, da perseverança dos que acreditam no Recife e querem que a cidade seja melhor administrada.

É uma segunda chance, uma nova oportunidade de mudar o que está aí. Novas alianças serão feitas, novas negociações, novos apoios. Se você acredita que a nossa cidade merece uma nova chance, no dia 30 de outubro vote então a favor da cidade.


O Recife merece ser uma cidade melhor. Pense nisso. No segundo turno dê uma chance ao Recife. Não vote em nome do ódio, vote em nome do amor.

quarta-feira, 23 de março de 2016

VERMELHO: QUE MEDO VOCÊS TÊM DE MIM???? OLHA AÍ ....

 A COR DO TERROR


Desde pequena que tenho uma cor preferida. Uma daquelas coisas que criança escolhe, descobre, sei lá, se apega e não se encontra explicação. Já nasci apaixonada pela cor vermelha. E, com certeza, quando nasci, não tinha opção política para associar cor à ideologia, por exemplo.

Eu sempre escolhia tudo vermelho, das minhas roupas às roupas das bonecas, tinha que ter vermelho. Não sei hoje, mas, quando estava noiva e fazendo enxoval, a gente escolhia a cor das roupas de cama e banho, para o dia do casamento. E, é claro que os lençóis e toalhas foram vermelhos. Os móveis da cozinha também, fogão, geladeira, mesa, armários, liquidificador, batedeira, tudo vermelho. No final dos anos setenta, as cores dos eletrodomésticos e armários eram bem variadas, talvez  para se contrapor ao branco que reinava sozinho há décadas. Essa moda durou alguns anos. Não sei quando, exatamente, o branco voltou e as cozinhas coloridas passaram a ser “cafonas”. Hoje, até chamar “cafona” é cafona. Já foi bokomoko, em algum momento.

Enfim, contei isso para dar a dimensão do vermelho em minha vida. Isso me veio à memória porque, ontem, li uma matéria falando sobre cinco agressões a mães, com bebês de colo, por causa da cor vermelha.  Fiquei tão impressionada com os depoimentos que não penso em outra coisa desde então. Lembrei que, quando minha primeira filha nasceu, a cor de tudo que ela usou no primeiro dia, foi, é claro, vermelho. E havia muitas peças no enxoval dela na cor vermelha. Então, se fosse hoje, eu e ela correríamos o risco de sermos agredidas na rua.
Fiquei me perguntando se isso está mesmo acontecendo. Não teria sido notícia falsa? Não consigo imaginar cinco mães inventarem essas histórias.  Houve casos em que a mãe estava com alguma roupa vermelha. Mas, houve dois casos ainda mais inacreditáveis: em um, o bebê estava com uma roupinha vermelha da Minnie e, em outra, a mãe usava um Wrap dryfit, também conhecido como “canguru” , para carregar o bebê. Teve agressão na rua, em
restaurante e até no trânsito ( conferir matéria: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/03/21/ja-sao-tres-os-casos-de-maes-com-bebe-agredidas-por-uso-de-vermelho/) *


O ódio que toma conta de uma parte dos brasileiros está se tornando cada vez mais perigoso. Agressões como essas acima a pessoas que não apoiam o impeachment têm acontecido a toda hora. Algumas se tornam conhecidas por serem com gente famosa, como a que sofreu Chico Buarque, ao sair de um restaurante. Mas, agressão a crianças, é algo muito, muito grave e assustador. Em um dos casos jogaram pedra, à altura da cabeça da criança. Em outro ameaçaram atirar na mãe e no bebê, por causa da cor vermelha.

Minha gente, está na hora das pessoas pararem e revisarem o seu comportamento absurdo, agressivo e criminoso. Ainda vivemos em uma democracia e, pelo que eu saiba, não existe proibição de uso de qualquer cor, em nenhuma parte da Constituição Brasileira. Se bem que, citar a constituição nem vale mais a pena, já que, também ela, vem sendo desrespeitada ultimamente.

PAREM com tanto ódio. PAREM com tanto desrespeito. Nem usar vermelho significa que a pessoa apoia o governo, o PT ou Lula e, muito menos, apoiá-los é crime. Crime é agredir alguém pela cor que usa, pelas causas que apoia, pela opção de gênero, por estar do lado dos mais pobres, pela religião que abraçou.

CRIME é impedir, pela ameaça e pela agressividade, que as pessoas expressem as suas opções. CRIME é fechar os olhos à miséria, à pobreza, à injustiça social. CRIME é impedir que as pessoas mais pobres também tenham os mesmos direitos que os mais abastados.

Se o ódio que vivenciamos hoje fosse na época em que casei, provavelmente eu não teria comprado os móveis e eletrodomésticos da cozinha na cor vermelha, porque as lojas já teriam sido atacadas por venderem produtos nessa cor e, provavelmente, proibidas de repor o estoque. E, se caso houvesse comprado antes da onda de terror se espalhar, minha casa seria apedrejada por ter tanto vermelho na cozinha. Talvez pichassem o muro com “vai pra Cuba”, “Petralha” e coisas afins. Mas não, eram outros tempos. Tempos em que se o presidente da República fosse chamado de “feio”, provavelmente algumas dezenas de suspeitos seriam presos, torturados e, o “culpado”, não voltaria para casa. Eram tempos onde o vermelho era derramado por muitos, nas salas de tortura, para que, no futuro, a presidenta da República fosse chamada de “quenga” e, as pessoas que carregavam a faixa onde isso estava escrito pudessem voltar para casa, tranquilamente, sem serem incomodadas.

Eram tempos onde até pensar era perigoso. Tudo era proibido, tudo era subversivo, tudo era terrorismo, se fosse contra o governo. Ao contrário de hoje, onde, ser a favor do governo é que é proibido.

O sangue que escorreu das veias esgotadas de tantos maus tratos, pintou as cores da democracia neste País. Os corpos que nunca foram encontrados forjou a liberdade de expressão e o direito de ser contra o governo e continuar a andar e a se expressar  sem perigo de desaparecer.

O jogo se inverteu. Perigoso hoje é apoiar o governo. Não é possível que tanto sofrimento, tanta dor, tanto sangue derramado tenha garantido apenas três décadas de democracia. Não é possível que a própria democracia seja a responsável por sua morte. NÃO! Democracia não é para isso. Democracia é para saber que o meu limite termina onde começa o do outro. Democracia é para respeitar as diferenças, em todos os sentidos. Democracia é para governar para todos, para todas, não importa classe social, cor, religião ou gênero. Democracia é para valorizar a vida. A VIDA DE TODOS. E não penas de quem tem dinheiro ou poder.

Da próxima vez que você vir alguém, seja adulto ou criança, com alguma roupa vermelha, lembre-se você deve a essa cor, a cor do sangue, o direito de estar nas ruas gritando e protestando, chamando a quem quer de ladrão e voltando pra casa vivo.
Mais respeito minha gente. Basta isso. Mais respeito...

* Sobre o autor do blog Alceu Luís Castilho

Alceu Luís Castilho é jornalista desde 1994, formado pela Universidade de São Paulo (USP). Entre 1994 e 2001, trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1999, venceu o prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico. Foi fundador e editor-executivo da Agência Repórter Social, pela qual obteve o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo e o Prêmio Andifes. É também Jornalista Amigo da Criança, título oferecido pela Agência de Notícias de Direitos da Infância (Andi) em 2007.