Cansadas de viverem sozinhas, de vez em quando as letras resolvem se misturar na cabeça de algumas pessoas e, juntas, formam palavras, que formam textos que, dependendo do momento e da imaginação de cada um, tornam-se contos, ensaios, críticas ou até mesmo incríveis historinhas infantis.
Daí, surgem misturas fantásticas para saciar a nossa fome de beleza e nos levar a um mundo encantado que só a nossa imaginação, unida à imaginação de quem escreve pode desvendar.

domingo, 3 de abril de 2011

TELEFONIA CELULAR: UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO

Tenho telefone celular há tantos anos que não lembro exatamente quando compramos a nossa primeira linha. A linha foi comprada ainda à TELPE. E os aparelhos eram tão caros que o que compramos, era chamado de arma branca, de tão gigante. Mas, na verdade, se tem uma coisa que não me preocupa é estar antenada com os últimos modelos, só porque estão na moda. Sou antenada com as coisas que tornam a vida mais prática, mais confortável, mais leve. Se estão ou não na moda, isso é o que menos conta pra mim. Pois muito bem, por vários anos, esta era a linha da família. O celular ficava com quem fosse sair e precisasse se comunicar. Com o passar do tempo, tanto as linhas quanto os aparelhos foram barateando e hoje já super comum cada membro da família ter o seu próprio aparelho de celular. Por vezes, mais de um. E eu fiquei com a tal linha dos primórdios da telefonia celular em nosso estado. Lembro que ela era TDMA e passou a GSM, sem maiores delongas. Hoje, passados pelos menos entre treze e quinze anos, fui obrigada a cancelar esta histórica linha familiar, porque a operadora resolveu me cobrar um absurdo de conect fast web e se recusa a remover o valor. Alegam que rastrearam meu chip e confirmaram que eu usei a inetrnet pelo celular naquelas datas. E o que é pior, os horários de acesso ora são de madrugada, ora em horário de trabalho, quando estou ou dormindo ou conectada através de computador. Ganhei de presente de minha filha um celular para navegar na internet. Este aparelho só começou a funcionar no dia 24 de janeiro, depois de todos os ajustes necessários, já que veio do exterior. No mesmo dia fiz um plano de acesso a web. Entretanto, como me deram um prazo de 48 horas para acesso, só comecei a acessar a internet através do aparelho lá pelo dia 27 de janeiro. Pois imaginem vocês que na conta de fevereiro veio cobrando, além do proporcional do plano de acesso a web, conexões a partir do dia 07 de janeiro, quando sequer passava pela minha cabeça entrar na internet pelo celular. Até ganhar este novo aparelho, a última vez que usei internet no celular foi há pelo menos uns cinco ou seis anos, para baixar toques. Com a chegada dos aparelhos com cabo de dados e/ou cartão e a minha descoberta do audacity, passei a editar meus próprios toques e aboli o uso de internet no celular. Além de me cobrar acessos antes de eu ter um telefone adequado para isso, continuaram cobrando mesmo no período em que eu já havia contratado o plano de acesso a web. E, com certeza, não eram acessos meus porque entre meia noite e cinco horas da manhã tenho o estranho hábito de estar dormindo. Reclamei, expliquei, me disseram que aguardasse que em cinco dias entrariam em contato comigo. Alguém ligou, disse que constataram o erro e que em breve eu receberia uma nova conta. Nunca recebi. Até que chegou outra conta, com vencimento para março. E que veio, novamente, cobrando acessos à internet. Liguei de novo, desta vez, na hora, reconheceram o erro e me enviaram uma conta certa, sem o valor das conexões. Procurei saber da conta anterior, disseram que já haviam passado as informações para minha filha. O que não aconteceu. No dia seguinte, a linha foi bloqueada. Finalmente consegui saber que o valor havia sido confirmado e que eu teria que pagar a conta em sua totalidade. O que, na prática era três vezes o que eu realmente devia. Bem, resolvi entrar com uma queixa na Anatel. Enquanto isso ou eu pagava a conta ou a linha continuava bloqueada. Resolvi cancelar o plano e transformar em pré-pago para não ficar pagando por um serviço que não poderia usar. Não pude. Então vou fazer a portabilidade para outra operadora. Não poderia. A não ser que pagasse a conta. A única opção que me deram para eu não continuar pagando o plano era cancelar a linha. Cancelei. Perdi um número que usava há quase 15 anos, inclusive para contatos profissionais. E acreditem, ninguém da operadora ligou para oferecer alguma alternativa. Vocês já devem saber de qual operadora estou falando. É da TIM, lógico. Agora vou dar entrada na reclamação na Anatel. Mas confesso que não estou lá muito esperançosa não. É a palavra deles contra a minha. Eu não tenho como provar que não fiz os acessos porque não tinha um aparelho de celular que faça um relatório de minhas atividades. Agora, da segunda conta eles abateram na mesma hora. E da primeira, que o valor é quatro vezes maior, se recusam. Se recusam, inclusive de retirar os acesso cobrados no período em que eu já havia feito o plano de acesso. Bem, é isso. A gente não corre perigo de ser assaltado pelos marginais nas ruas não. A gente pode ser assaltado de maneira cínica, por empresas como a TIM e mesmo as outras, que nos cobram por serviços que não usamos e não temos como provar. Só me resta agora esperar que a justiça seja feita. Agora, se demorar muito a resolver, logo logo vou receber uma correspondência da SERASA dando um prazo pra pagar a conta. Mas aí, o bicho vai pegar.

sábado, 19 de março de 2011

AFINAL O CRIME COMPENSA?

Não sou uma grande aficionada de televisão aberta e, confesso que pouco sei sobre a programação, chegando, alguma vezes, a parecer meio que uma “ET’ quando as pessoas comentam sobre esse ou aquele programa.
Mas, gosto de uma novelinha das sete. Não de todas que entram no ar. Porque além de gostar da trama tenho também que gostar dos atores. Se não gostar dos protagonistas, não consigo assistir. E, o contrário também é válido.
Por exemplo, gosto muito de Antonio Fagundes, mas não o suficiente para assistir a “Tempos Modernos”.
Quando se trata de novela das oito, só as histórias de Manoel Carlos me atraem. Não gosto daquelas novelas cheias de intrigas, de pessoas ruins que passam a história inteira fazendo o mal. Mas o que acho pior ainda é essas pessoas, no final, não serem punidas.
Como o caso clássico de Vale Tudo, Passione terminou com a grande vilã, assassina fria, personagem de elevadíssimo grau de maldade, feliz e próspera em uma ilha qualquer do caribe, dando mais um de seus golpes e ainda zoando com a cara do ex-comparsa que, pelo menos, estava preso.
Tudo bem, podem dizer alguns. A vida real é assim. Mas não seria o caso de, nestas novelas cheias de crimes, cenas de violência e sexo, recheadas de situações negativas, ao final, o mau ser punido?
Fico imaginado que, definitivamente, os meios de comunicação esqueceram que uma de suas funções, que é EDUCAR e resolveram que informar e divertir é suficiente.
Passione foi uma novela muito ruim e terminou pior ainda.
Já TI TI TI, que foi uma novela divertida, onde as maiores intrigas sempre davam errado, deu,às duas grandes vilãs da novela, um final mais do que feliz. A Steffani, mau caráter que engravidou do namorado da prima pra casar com ele e porá mão no dinheiro da avó, no decorre da novela foi requitando suas maldades ao ponto de contratar uns caras do mau para provocar a morte dos dois, quando o marido, do qual estava separada, herdou uma fortuna. Ninguém morreu, mas será que só a tentativa de assassinato já não seria um bom motivo para ela terminar atrás das grades? Golpista e alpinista social, como era chamada na novela, termina gloriosa, como a vencedora de um reallity show, desfilando em carro aberto pela cidade e agradecendo ao Brasil por a terem escolhido.
A outra vilã, má de carterinha, provoca a doença em um bebê, e faz mil e uma tramas para ter de volta o cara pelo qual era obcecada, tenta matar a mocinha da novela, pra se vingar, arrastando-a para uma armadilha onde bate com o seu carro no carro da outra até provocar um acidente grave. A mocinha fica entre a vida e a morte, mas escapa. E a vilã? Bem a vilã encontra um garotão sarado e fogem junto rumo à felicidade.
E então, qual a mensagem no final de tudo? O crime compensa. Pode matar, esfolar, enganar, prejudicar como quiser que, no final, é só fugir e ser feliz.
Que bela mensagem para as crianças, jovens e adolescentes que assistem a essas novelas heim?
Como se não bastasse a bizarrice absurda e ridícula dos BBB da vida, a moda agora é espalhar a maldade com sucesso.
E não adianta a desculpa de que é a realidade. Porque é aí que a coisa piora. Se a realidade é essa, como vamos mudá-la se a televisão mostra que é assim que tudo dá certo?
Pra que perder tempo trabalhando, estudando, se, com alguns golpes se pode ficar rico e viver feliz pra sempre?
Ah!,Sem falar que a bola da vez agora é a bigamia. Na tal da Passione, uma senhora de mais de 80 anos termina com um marido e um amante. E o italianinho com uma esposa e uma amante, formando uma família harmoniosa e feliz.
Em TI Ti Ti, o costureiro André Espina termina com a esposa ardilosa e vilã (de médio porte), incentivando o relacionamento dele com Jaqueline, tudo em nome dos negócios e do sucesso.
Ah! E não posso esquecer que a “titia’, personagem que era completamente pirada no início da novela, recuperou a memória, deu uma transformada no visual e terminou, também ela, com dois namorados.
Que lástima que a TV não se preocupe mais em formar, em educar, através de suas séries e novelas.
Nesta linha de sejam maus e vivam felizes, só temos a perder, porque daqui pra frente, com certeza, o nível só vai piorar. Não tem sido assim ultimamente?

sábado, 12 de março de 2011

ESTES TAIS DE COMENTARISTAS...

Fala a verdade, para você o que é um comentarista? Bem, agora é o momento de dizer: bem, comentarista é aquela pessoa que nos enriquece com suas observações, enquanto assistimos a algum evento.
Outro poderia dizer: é aquela pessoa que nos ajuda a entender algum esporte que não conhecemos.
E mais; comentarista é aquela pessoa que nos anima, que nos esclarece. São indispensáveis.
Estes "comentários" correspondem à realidade? De verdade, você concorda com algum deles?
Pois é, nem eu. Gente! Existe nos meios de comunicação alguma profissão mais dispensável do que comentarista.
Não foi a toa que, durante a copa de 2010, o twitter pipocou com o "cala boca Galvão". Eu não suporto ouvir os comentários óbvios ou desnecessários de comentaristas de esportes, de uma maneira geral, de entrega de Oscar e desfile de Escola de Samba.
Minha gente, o que foi aquilo este ano? Eu não tenho a menor paciência para assistir aos desfiles ao vivo. Daí, assisto àqueles compactos, bem compactados, suficientes para termos uma visão dos desfiles.
Mas, mesmo assim, não pude deixar de ouvir os comentaristas se atropelando, cada um querendo mostrar mais conhecimento que o outro, falando de coisas que provavelmente receberam prontas, sobre os carros alegóricos, os personagens, a história contada pelas escolas. Não sei o nome de nenhum deles. Só sei que a voz masculina se não era Galvão Bueno era clone da voz dele. Igualmente irritante. E a comentarista, nem comento. Os dois pareciam estar competindo pelo "estandarte de latão" de comentarista.
As pessoas não têm noção do quanto falam besteiras no ar? Quem se importa que tal time passou 32 anos sem jogar naquele campo em dia de chuva?
A quem interessa que aquele ginasta rodopiou as suas primeiras oitocentas mil vezes usando um padrão azul celeste?
Que é que é isso minha gente? O cara se empolgou tanto com o desfile que daqui a pouco parecia que estava transmitindo os momentos finais de uma corrida de fórmula 1. Aquela voz ansiosa, aquela emoção de quem vai cruzar primeiro linha... emoção que, muitas vezes, só existe mesmo na cabeça deles não é?
Tem gente que vai para o estádio e leva um radio de pilha. Sabe por que? Porque o comentarista narra sempre com muita mais ação do que realmente está acontecendo. Então, às vezes, o jogo está tão ruim que vale a pena fechar os olhos e só ouvir o rádio.
Definitivamente não tenho mais paciência para isso. Bem, jogo de futebol eu não vejo mesmo, de forma alguma. E o resto, patinação no gelo, ginástica olímpica, desfile de Escola de Samba, só consigo assistir se for no modo Mute.
Fala sério! Ninguém merece.

sábado, 5 de março de 2011

O CARNAVAL ESTÁ AÍ. E DAÍ?

Pois é, chegou o carnaval. Nunca se vê tanto alvoroço na cidade quanto nas proximidades do carnaval.
Tudo bem, não tenho nada contra a pessoa se fantasiar e cair no frevo. Até aí tudo bem.
Acho interessante dar uma espiada na TV no sábado pela manhã, para ver um pouco do desfile do Galo.
Gosto de assistir aos telejornais, ver as reportagens sobre o carnaval. Curto a criatividade sadia nas fantasias e tal. Não tenho, é verdade, a mínima paciência para assistir aos desfiles das escolas de samba do Rio ou de São Paulo. Mas se for uma reportagem que mostre flashes do desfile, sem muita repetição, consigo encarar.

Agora, o que eu não consigo mesmo aceitar ou entender é que o carnaval seja sinônimo de permissividade. Isso eu não vou mesmo entender nunca.
Porque as pessoas não podem concentrar sua euforia e sua irreverência nas fantasias e no pula pula? Por que precisam beber até cair, se drogar até morrer, transar até o limite da exaustão e desrespeitar todas as regras da conveniência, da boa educação e do respeito aos limites?

O carnaval é uma grande festa democrática, onde todos brincam misturados, nos blocos, nas ruas, sem distinção de cor, credo ou classe social. Bem, pelo menos é o que a gente acredita. Ou, pelo menos, deveria ser assim. Mas, muitas vezes, o desrespeito é tanto que alguns podem sair machucados, fisicamente e emocionalmente.

Quando o Galo começou a desfilar, eu e meu marido participávamos do desfile. Era muito divertido ver os blocos e as fantasias engraçadas. As pessoas brincavam sem incomodar ás outras. Nunca presenciamos violência ou furtos. Mas, com o tempo, o bloco foi crescendo e, acho que a última vez que desfilamos no Galo foi há pelo menos uns vinte anos. Não consigo nem chegar perto. Assistir só pela TV. Bem longe do centro da cidade.

Adoro o frevo. Não há ritmo de carnaval mais bonito, de se ouvir e de se ver dançar. Curto o maracatu e seus tambores, a sua história e tradição. Acho o carnaval um espetáculo belíssimo, de cores e ritmos. Sou uma fã incondicional da cultura popular e, mais ainda, da cultura popular de Pernambuco.

Mas, infelizmente, enquanto o carnaval for sinônimo de “durante os quatro dias de momo tudo é permitido”, o brilho da festa será sempre ofuscado pelos números finais da violência, das prisões, dos acidentes.

E, enquanto assim for, vou continuar assistindo só de longe. Sem ser obrigada a presenciar cenas desagradáveis de bêbados inconvenientes passando a mão na mulher alheia ou lamentáveis cenas de acidentes de carros e motos esbagaçados. Passando o carnaval em casa, me poupo de ouvir esta famigerada frase: “É carnaval, então tudo pode”. Pois é, é carnaval, eu sei. Mas e daí?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

SAUDADE DO QUE NÃO VIVI

OU QUANTO DÓI UMA SAUDADE

A nossa vida é como um livro de história, que vai sendo escrito, pouco a pouco. Sei que isso é clichê e tal, mas acredito mesmo nisso. As coisas vão acontecendo e se juntando às outras, formando a história de nossa vida.

Cada momento, cada acontecimento, é parte de um determinado capítulo que pode se encerrar em um instante ou se arrastar por toda a vida.

E a nossa história, é claro, vai se entrelaçando com outras histórias, em primeiro lugar com as de nossos pais e familiares e depois, se expande, com a entrada dos amigos, dos amigos dos amigos,dos vizinhos, dos namorados e namoradas, das famílias deles e de tantas outras histórias, alegres ou tristes.

Ontem, encerrou-se, mais um capítulo da minha vida. Morreu uma pessoa que teve muita importância em minha história, embora já não nos víssemos há algum tempo.

Ele e meu pai se conheceram ainda crianças. Por isso, era como se fosse um tio de verdade. Cresceram juntos e, as namoradas se deram tão bem que passaram a formar uma pequena família, sem laços sanguíneos, mas afetivos, muito fortes.

Noivaram, casaram, tiveram a primeira leva de filhos, viviam sempre tão próximos, tão juntos, que eram praticamente como se fossem realmente irmãos.

Entre sete e cinco anos depois, lá chegava a segunda leva de filhos. Igual à primeira, dos meus pais, uma menina, do lado deles, uma menina e um menino.

Crescemos assim, eu, minha irmã e meus quatro primos-irmãos, como uma só família. Todos os sábados, saiam os quatro para passear. O Veleiro e o Barril foram, por muito tempo, seus locais preferidos. E às vezes ia a cambada toda, na maior farra. Como nos divertíamos. Ainda sinto o sabor da melhor coxinha que já comi em minha vida: a do Barril.

Não há um momento sequer de minha vida, até meados da década de 80, que eles não tenham feito parte. Não havia feriado que não passasse com eles. Íamos para hotéis em Fazenda Nova, Garanhuns, ou para casas alugadas em praias como São José da Coroa Grande.

Quando o carnaval chegava, se não fôssemos passar fora, eu e minha irmã nos mudávamos para a casa deles. Às vezes, até meus pais iam também. Brincávamos nas manhãs de sol para as famílias recifenses e à noite nos esbaldávamos no corso. Como eu adorava o corso. Como eu amava chegar em casa toda melada de talco, maisena, café e, todos famintos, esperar pela famosa macarronada de meu primo mais velho: a macarronada da meia-noite. Que delícia!

Tive uma infância muito feliz, ao lado dessa dupla família, que nos levava aos passeios mais incríveis como, por exemplo, sair de Recife para almoçar em um restaurante a 90 km de distância ou ir andar a cavalo em Fazenda Nova e voltar no mesmo dia. Nos tempos da minha infância ainda não havia chegado a crise do Petróleo. Imagino que alguns estão fazendo as contas tentando adivinhar a minha idade.

Havia os passeios de domingo pela manhã ao monte dos Guararapes, onde a gente subia nas árvores e chupava rolete de cana. E pitomba, é claro, quando estava na época. Respirávamos brincadeira e história. E ainda, de quebra, tínhamos direito a uma vista maravilhosa.

Ah! Não posso esquecer os divertidos piqueniques que fazíamos em Itapuama, à época uma praia semi-deserta, com ondas assustadoras. E depois, a travessia das pedras e o banho nas tranquilas águas de uma prainha linda que, só anos depois, descobri que se chama Pedra do Xaréu.

Não convivi muito com a família de meu pai. Portanto, não tive muito contato com os primos de sangue do lado de lá. E, em relação à família da minha mãe, apenas um tia, minha madrinha muito querida e sua única filha, eram os parentes de sangue com quem convivíamos frequentemente e que realmente posso chamar de família. Com esta prima, tínhamos e temos, até hoje, uma relação de irmãs. Seus filhos eram os meus xodós na infância e adolescência. Minhas pequenas e queridas companhias. Hoje, adultos e com filhos, continuamos unidos.

Bem, voltando à outra família, fomos crescendo, os meus primos mais velhos casaram, chegaram os filhotes. Como curti esses priminhos. Quando o primeiro nasceu, como eu trabalhava e estudava a semana toda, todos os sábados eu pegava o ônibus e ia para a casa da minha prima, cuidar do meu priminho. Ele carregou as alianças no meu casamento. Fofíssimo. A irmãzinha dele seria daminha. Até ensaiou. Mas, com apenas dois aninhos, na hora de entrar, se assustou com o fotógrafo e desistiu.

E daí foi a vez da segunda leva casar. Primeiro eu e depois os meus primos. Esqueci de falar nas noites de natal. Eram animadas, sempre com novas crianças nascendo e alegrando a noite. O natal era comemorado em casa de meus pais. E o ano novo, em casa de meus tios, junto com a comemoração do aniversário de meu primo. Um primo que podia não ser de sangue, mas que era mais que isso, era o irmão que eu não tinha, o amigo e confidente. Tínhamos uma amizade tão grande que as pessoas até pensavam que um dia a gente ia se casar. Mas não. Era puro sentimento fraterno. Sempre.

Tive a alegria de ter duas tias incríveis: a minha madrinha, irmã da minha mãe e a tia do coração. Éramos uma pequena família, alegre e unida.

Mas o tempo passou, as coisas foram mudando e, em determinado momento de nossa história, o elo se partiu. Não gosto nem de lembrar quando e como isso aconteceu. Foi banal, foi desnecessário, mas, infelizmente, aconteceu.

Às vezes, as coisas acontecem mesmo assim. Uma pequena fagulha inicia um grande incêndio. Um trincado minúsculo e toda a estrutura de vidro explode em perigosos fragmentos.

E aquela família que eu tanto amava, que já existia antes mesmo de eu nascer, a minha família do coração se desfez em duas partes. Ficamos separados por tão pouco. Passei anos de minha vida chorando a cada aniversário de algum dos meus primos ou dos meus tios. Foi uma recuperação muito difícil. Arrastou-se por anos. Quando nos encontrávamos era sempre tão difícil. Mas o tempo foi passando, e a dor foi se acomodando, querendo cicatrizar, sem muito sucesso. Na verdade, se transformou em uma cicatriz dolorida, que , embora não sangre, está ali, viva, nos lembrando do tamanho da ferida.

Hoje, passados mais de 25 anos, já não existe nenhum vestígio do que fomos, não participamos das vidas uns dos outros. Alguns já não estão mais entre nós. De minha pequena família já partiram meu pai, a minha madrinha e o marido de minha prima. Por outro lado, a família aumentou um pouco com a chegada da esposa de meu primo e de seus dois filhinhos e do marido da minha prima e de sua filhota. e a minha família também cresceu pois, apesar de das minhas três filhas, as duas mais velhas morarem longe, a chegada dos dois genros aumentou a família, ainda que de longe. Somos uma família transcontinental e internacional,

E do lado da minha família do coração, só a minha tia já partiu. Isso até sexta-feira quando, no trabalho, recebi a notícia de que seu marido já não estava mais entre nós. Fazia tempo que eu não o via. Na quarta-feira, de repente, sem nenhuma razão, eu me lembrei dele e me perguntei como ele estaria, se estaria bem e qual seria a idade dele agora. Três dias depois, voltei a vê-lo, só que no velório. Teria ele pensado em mim por algum momento e eu teria sentido isso? Nunca vou saber.

E ontem, durante o velório, falando com meus primos que eu não via há tanto tempo, olhando seus filhos grandes, homens e mulheres, uns casados, com filhos, senti uma saudade enorme, saudade de um tempo que não vivi, que me foi roubado por circunstâncias que poderiam ter sido evitadas... quem sabe?

O bebê que eu atravessa a cidade nas manhãs de sábado para curtir, para cuidar, agora segura seu próprio bebê em seus braços. Um lindo garoto de olhos vivos que nunca me viu e talvez nunca vá saber que eu era louca por seu pai, que eu passava muitas tardes de domingo, junto com meu marido, à época namorado, cuidando dele para a minha prima descansar. Quantas não foram as gofadas dadas nas camisas dele ... lembradas até hoje ...

Olhava para eles, os filhos dos meus primos, sentindo uma tristeza imensa por ter deixado de fazer parte de suas vidas.

Enquanto olhava, de longe, o corpo de meu tio, a serenidade que sua fisionomia passava, relembrava os pratos de banana amassada que ele levava pra gente lanchar, dentro do mar, porque não podíamos perder nenhum minuto saindo para comer fora da água.

Lembrei dos carnavais cheios de animação que passávamos todos juntos, dos passeios, das noites de natal, das caixas de sorvete compradas na fri-sabor para a sobremesa dos almoços do domingo, do doce-de-leite fetio com leite condensado cozido na lata, do tri-campeonato que assistimos todos juntos. Como poderei esquecer da viagem dos quinze anos meu e de meus primos – somos os três do mesmo glorioso ano de 1955. Fomos de carro para a Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, sendo a volta pelo sertão, para visitar a minha prima, o marido e meus dois priminhos, os de sangue.

Foi uma viagem inesquecível, com direito ao carro quebrar a cada vez que subia uma ladeira, mas extremamente gostosa e divertida. Meu pai dirigia e minha mãe, minha tia, eu e meus dois primos só curtíamos a estrada. Meu tio se encontrou com a gente só depois, em São Paulo.

Das minhas três filhas, só a mais velha ainda conviveu com toda a família unida. As outras duas já nasceram quando seguíamos rumos diferentes. Como lamento tudo isso. Como lamento estes anos em que perdemos de conviver uns com os outros. Mas, passado não se muda. Não dá pra voltar atrás. Por mais que a gente lamente.

Fico aqui com a minha saudade. Com esta saudade danada que arrebenta o meu peito. A saudade de tudo de bom que passamos juntos e a saudade de tudo que perdemos uns dos outros.

Aos que se foram a minha saudade e a gratidão por ter podido conviver com eles. E para a minha eterna família do coração todo o meu carinho e amor.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

QUANDO OS SONHOS NOS INSPIRAM

Ao ler o texto de Frei Betto postado hoje no blog do Jornal O Porta-Voz, OS SONHOS DE KLEPLER, senti uma identificação enorme com o que ele escreveu sobre o ritmo de vida no século XXI.

Identificação em relação ao sentimento dele de que vivemos uma realidade cruel e controversa. Afinal, o homem desenvolveu tanto a tecnologia e, mesmo assim, continua sempre com pressa.

Sinceramente, sinto um certa “santa” inveja de pessoas que moram em cidades pequenas, que percorrem as ruas da cidade a pé, sem pressa, cumprimentando todos no caminho.

Às vezes me imagino assim: morando em uma pequena cidade do interior, mas não muito longe de uma cidade grande, onde pudesse fazer as compras necessárias para uma vida prática e tranqüila.

É claro que jamais abriria mão da internet, do computador e do celular, pois estar conectada com o mundo é, para mim, um dos privilégios de se viver na era da tecnologia.

Será que é sonhar alto demais viver com tranqüilidade sem abrir mão da informática e suas delícias? Creio que não.

Por que então não poder viver assim, numa cidade tranqüila, onde as pessoas se respeitem, não usem sons altos, não se xinguem no trânsito, não se estranhem nas filas?

Nesta minha, digamos, utopia, não haveria engarrafamentos. Porque só usaríamos carro para ir a outras cidades. Os percursos internos, seriam feitos a pé ou talvez de bicicleta.

Poderíamos deixar sempre as janelas abertas, porque ninguém invadiria a casa de ninguém. Minha casa teria um pequeno jardim, cheio de flores coloridas e um pequeno quintal, onde, embaixo de alguma mangueira (espada é claro) bem frondosa, estariam espreguiçadeiras nos esperando para lermos algum livro ou apenas conversarmos e curtimos a brisa fresca da tarde.

A TV a cabo e a internet nos ligariam ao restante do mundo e, as agruras de uma cidade grande seria para nós apenas notícias.

Como me identifico com os sonhos de Kepler, descritos por frei Betto em seu texto: “a vida campestre, a roda de amigos, o coro de anjos numa igreja e a melodia das estrelas”. Ao sonho dele acrescentaria o aconchego da família. Porque sem ele, nada vale a pena.

Poderia haver uma vida mais feliz? Uma simpática cidade, a família junto da gente, amigos daqueles companheiros de todas as horas, o coro dos anjos e a melodia das estrelas. Quem precisa mais do que isso para viver?

sábado, 12 de fevereiro de 2011

LEI DE GÉRSON

Como se a esperteza já não fizesse da natureza humana, algumas empresas resolveram, através da publicidade, dar uma “mãozinha” em suas campanhas, incentivando o mau-caratismo.


Tudo começou há pelo menos três décadas, quando uma marca de cigarro que realmente não lembro o nome, criou a famosa “Lei de Gérson”, onde o ex-jogador tricampeão, portanto idolatrado pelo país, sentado em uma cadeira, fumava o tal cigarro porque gostava de levar vantagem em tudo. A partir daí, a nova lei ganhou a estrada e se espalhou feito praga pelo país. A partir de então, a “Lei de Gérson” passou ser sinônimo de se dar bem, de saber tirar proveito em cima dos outros, como furar filas, por exemplo. Quem não levava vantagem, passou a ser um otário, numa inversão de valores vergonhosa.

Não que tenha sido Gérson ou sua lei que tenham levado as pessoas a serem aproveitadoras. Mas a “institucionalização” da lei, tirou o aproveitador da condição de criticado para se tornar um praticamente um herói.

Esse comportamento duvidoso, mas aclamado, tem feito parte “honrosa” em nossa cultura. Tanto que coisas como o pagamento de propinas quando se é multado é tão natural quanto se enganar quem nos presta serviço, pagando um salário indecente. As pessoas se vangloriam de inventarem deficiências para estacionarem nas vagas especiais, de sonegarem impostos, de pagarem para alguém fazer seus trabalhos escolares, de nunca terem sido pegos filando em provas, de terem comprado algo muito abaixo do preço porque quem vendeu estava com a corda no pescoço... enfim, ser honesto passou a ser coisa de imbecil.

Há alguns anos, uma indústria de automóveis usou crianças fazendo prova para mostrar as vantagens de ser abertos. As indústrias concorrentes eram representadas por crianças que não davam fila aos colegas. E a deles, ao dar fila, estaria se abrindo ao mercado. Que belo exemplo não? Fiquei tão chocada quando assisti pela primeira vez ao comercial, que achei não ter entendido realmente a mensagem. Para minha desilusão, era exatamente o que não quis acreditar: uma apologia à lei do menor esforço. Pra que estudar, se você pode se dar bem filando? Mas uma vez, não lembro o nome do produto. Fico tão indignada que não armazeno essas informações.

E, no dia seguinte, assistindo ao noticiário, praticamente entrei em choque ao assistir a mais um comercial reverenciando a desonestidade: um cara recebe uma encomenda para o vizinho: uma TV de plasma. Ele resolve abrir para ver se está inteira e daí se apossa da televisão. É claro que passam todas as vantagens sociais que ele tem a partir da tal TV. Daí, toca a campanhia e o vizinho pergunta: você não recebeu uma encomenda pra mim há alguns dias?

Não pude acreditar no que vi! Como promover um produto incentivando a esse tipo de atitude? A TV é tão boa que justifica o fato de se apossar dela?

Então eu me pergunto: existe diferença entre um sem teto invadir uma casa vazia para se abrigar, um sem terra invadir uma área improdutiva para tentar sobreviver e um vizinho se apossar da TV do outro porque ela é “o bicho”? Existe, é claro! O sem teto e o sem terra é pobre, não tem nenhuma perspectiva na vida e se apossar de algo que não lhe pertence é uma tentativa desesperada de conseguir ter uma vida menos ruim.

Vivendo em um país que está em franco desenvolvimento econômico e tecnológico, com um governo que, entrando em seu nono ano, trabalha para promover a inclusão social, já está na hora de começarmos a pensar em promover também a educação doméstica, o respeito aos outros e, acima de tudo, extirpar, de uma vez por todas de nossa cultura, essa maldita lei de Gérson.